quinta-feira, 31 de outubro de 2013

IR AO JARDIM DA CELESTE




Ir ao jardim da Celeste

E não apanhar a rosa,

Não é de varão, Celeste!

E será conduta honrosa?

 
Ir ao jardim da Celeste

E na rosa não tocar,

Deve ser triste, Celeste,

Boa razão p’ra chorar.

 

Ir ao jardim da Celeste,

p’ró giroflé-giroflá,

só pode ser bom, Celeste,

melhor, decerto, não há!

 

 Se eu for ao teu jardim,

Deixa-me colher a rosa.

Deixa-me uni-la ao jasmim.

Celeste, linda e vistosa!

 

 

ANDA ROCINANTE


NET

Onde estás, ó Dulcineia?

Eu vou morrer de desejo,

Neste castelo de areia,

Sem ter o prazer de um beijo?

 
Anda, Rocinante, anda!

Leva-me àquela aldeia,

Onde o destino manda

Que encontre Dulcineia.

 
Leva-me para Toboso,

Que recuperei o juízo...

Meu cavalinho fogoso,

Leva-me p ‘ró  paraíso!

 

 

ALENQUER



Alenquer é terra boa,
De trabalho e devoção.
A dois passos de Lisboa,
Até causa admiração.

 

DOLORES – I

 
NET
 
 
Inda rosa em botão,

Ferida no coração,

Dolores corria,

Dolores voava.

 
Inda flor a desabrochar,

Com o coração a sangrar,

Dolores corria,

Dolores voava.

 
Ferida no coração,

Cantava em seu balcão,

Dolores corria,

Dolores voava.

 

Com o coração a sangrar,

Pungente no seu cantar,

Dolores corria,

Dolores voava.

 

 Cantava em seu balcão

Fascistas no pasaran.

Dolores corría,

Dolores voava.

 

 DOLORES -II

 
“No pasaran!”,

Dizia ela

Indomável

Na ânsia de vencer.

 

 “No pasaran!”.

Dizia ela

Com a bravura

Da torrente do rio

No auge da tempestade.

 

“No pasaran!”,

Dizia ela...

 

 DOLORES -III

 

Quem guardará memória

Do seu discurso de fogo?

 

Quem guardará memória

Da sua vontade inquebrantável?

 

Quem guardará memória

Da sua grandeza intangível?

 

Quem?

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

CATECISMO



Águas passadas, Noé
nadou onde havia pé.

Ao acordar, disse Abraão:
-hoje faço serão.

Não acredito em Moisés
e, no fundo, tu também não crês.

Era questão de tempo, estava escrito:
sobre Jesus estava tudo dito.

E de mais não precisou Jeová
para dizer convencido: - Agora é que já está!


Teixeira, João de Sousa, REBUÇADOS, CARAMELOS & SONETOS,
RVJ Editores, Castelo Branco, 2008

SEMPRE A PALESTINA


 

        (Para Tawfiq Zaayad, poeta palestino)

Beija por mim
a Terra Santa da Palestina,
ó viajante!
E se fores a Nazareth,
vai deixar flores
no túmulo de Tawfiq Zaayad.

 

E segreda-lhe
( os poetas
ao contrário dos deuses,
mesmo mortos,
nunca deixam de ouvir)
que os países
podem ser riscados dos mapas,
mas as nações são eternas.

 

Diz-lhe, viajante,
baixinho,
que não há medida
para a nossa esperança!

 

domingo, 27 de outubro de 2013

NEM O DILÚVIO FOI ETERNO





     Ó heróicas mães da Palestina, que rios de lágrimas tendes vertido, acreditai-me: melhores dias virão! Acreditai, ó amigas minhas, que nem o próprio dilúvio foi eterno como escreveu um dia o poeta Bertolt Brecht.

     Por favor acreditai que eterno não será também o vosso sofrimento!

     Neste tempo de cólera, de ódio sem fim, eu temo, ó minhas irmãs, que até estas palavras que quero amáveis vos possam magoar. Quem sou eu para vos aconselhar a acreditar? Quem melhor do que vós, ó sublimes heroínas, tem dado lições inenarráveis de coragem e tenacidade?

     Sim, sou desde há muito um vosso companheiro de estrada – passe o lugar comum, que os algozes criticam -, que quero um dia percorrer os caminho de Jericó e abraçar-vos em Lida, Belém, Ramallah e Jerusalém.

     E à porta de vossas casas, quero comer tâmaras e laranjas e celebrar convosco a paz e a concórdia. Nesse dia, ó minhas irmãs, guardai, guardai para mim, laranjas de Jafa!

 
UM BANHO DE ALEGRIA
                                   É PRECISO



     Eu sei, meu amor, eu sei que esse dia virá.

     E quando vier, quero contigo estar - e com todos os nossos –, para inundar a cidade de cânticos novos. A nossa cidade anda muito soturna. A nossa cidade cansa, entedia, oprime. A nossa cidade está carente de um banho de alegria.

     Eu sei, meu amor, eu sei que esse dia virá.

     E quando vier, quero contigo estar – e com todos os nossos –, para comemorar! Sem constrangimentos, beberemos dos nossos sagrados vinhos até à embriaguez total, desmoronando os diques e deixando que a alegria invada os corações.

     Eu sei, meu amor, eu sei que esse dia virá.

     E quando vier, que não haja drama se eu não estiver. Que outros estarão, certamente, para o receber e comemorar com a simplicidade das crianças.


sexta-feira, 25 de outubro de 2013


MEMÓRIA
 
          (Em memória de minha avó paterna)

WIKIPÉDIA
 

Vejo-te sempre ali

Junto à lareira

No teu banquinho sentada

Os olhos muito abertos

Mas já sem brilho.

 

 Vejo-te sempre ali

Junto à lareira

De viuvez vestida

Ansiosamente olhando

Mas não vendo nada.

 

Vejo-te sempre ali

Junto à lareira

Velho tronco devastado

Pelo simples fluir

Inexorável dos dias.

 

 Vejo-te sempre ali

Junto à lareira

Vivo o lume

Os olhos muito abertos

Mas já sem brilho.

AMAR



É estar sentado,
Contigo,
À porta da nossa casa
Numa noite de Verão.

E ao luar,
Absorto
No voo
Dos meus pensamentos,
Comer tâmaras,
Em paz.



E saber,
Amor,
Que esperas
Que a brisa passe
E eu procure,
Ternamente,
A tua face.


CANTIGA DO COITADO

 
 


Em Vigo

Perguntei às ondas:

- Sabeis Novas da minha amiga?

E as ondas me responderam:

- Um novo amigo tem!

 

Em Pontevedra

perguntei aos barcos:

- Sabeis novas da minha amiga?

E os barcos me responderam:

- Um novo amigo tem!

 

Em Santiago

a Santiago perguntei:

-Sabeis novas da minha amiga?

E Santiago me respondeu:

- Um novo amigo tem!

 

Ferido no coração

a Lisboa voltei

mil vezes ouvindo:

- Um novo amigo tem!

- Um novo  amigo tem!

                                                          Lisboa, 16 de Dezembro de 1999

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Ah, eu gostava tanto da poesia de Gomes Ferreira!

    

 
Ah, eu gostava tanto da poesia de Gomes Ferreira!

     Gostava daquele jeito tão seu de dizer as coisas, da sua retórica única, do modo natural como metia mulheres nuas nos poemas.

     Ah, eu gostava tanto da poesia de Gomes Ferreira!

     Gostava daquele jeito tão seu de ser solidário, dos seus protestos viris, do modo simples como transformava o real em poesia.

     Ah, eu gostava tanto da poesia de Gomes Ferreira!

     Gostava daquele jeito tão seu de andar na lua, mas sempre a olhar a Terra, que enchia de árvores e folhas e flores e frutos.

      Ah, eu gostava tanto da poesia de Gomes Ferreira!

     Gostava, sobretudo, dos violinos que tão habilmente escondia em cada verso.

 

 

 

PARIS
 
 
 
Chamam-lhe a cidade luz,

Mas que luz tem a cidade?

Que fascínio seduz

Quase meia humanidade?

 

Oh, grande e bela Paris!

Oh, generosa cidade!

Não, não se engana quem diz,

Que deixas sempre saudade!

 

Um café no Luxembourg,

Descer o Saint Michel,

Os faquires no Beaubourg,

Namorar na Torre Eiffel.

 

Confesso que fui feliz,

No tempo que lá vivi.

Oh, doce e gentil Paris,

Como é bom gostar de ti!

 
ANTÓNIO NOBRE


A Paula Nina Morão

     Às vezes, dou por mim agarrado ao de António Nobre e sinto uma imensa tristeza. Eu sei que parte daquele sofrimento é fingido, porque todos os poetas são fingidores. Mas usa uma máscara tão autêntica, tão dramaticamente convincente, que a tristeza de Anto me esfarrapa todo por dentro.

     Às vezes, ponho-me a imaginar António Nobre, sozinho, nas ruas de Paris, rememorando a igreja de Leça, o mártir S. Sebastião, o Senhor de Matosinhos... Eu imagino Anto, naquele ambiente moderno e cosmopolita, corroído de saudades dos manéis, do mar, de barcos, de fanfarras, eiras, pescadores, camponeses, arraiais.

     Às vezes, agarrado àqueles versos que até parecem conversa fiada, pelos meus olhos perpassa um Portugal beato, atrasado e rural. Que permanece, cem anos depois de Nobre, apesar de tudo, tremendamente real.

 

 
PÁTRIA - II



Nada devo à pátria e a pátria nada me deve. Saldámos as nossas contas em seis de Outubro do ano de todos os desencontros de mil novecentos e setenta e cinco.

     Eram oito da noite e havia gritos no aeroporto militar do Figo Maduro.

     Dependurado num portão decadente, o João José, ainda criança, acenava-me comovidamente.

     Trazia às costas um saco de pesadas visões e de fragmentos de um império que, tardiamente, muito tardiamente, desaparecia. E que não me deixava saudades, nem azedumes, nem comoções.

     Separámo-nos definitivamente naquela noite de outono e nunca nos voltámos a reencontrar.

     Não temos nada para dar um ao outro, nem eu nem a pátria. As nossas contas estão rigorosamente saldadas.

     Que a pátria seja muito feliz e eu também.

 

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

A PATRIA



A pátria... De novo e sempre a pátria!

     Outrora, a palavra era grave e fagueira e provocava em mim, quando a ouvia ou pronunciava, um mar de emoções. Associava-a a sítios formosos e a bravos cavaleiros medievos e a subidos valores, que, pensava, constituíam a minha identidade. Era a terra de meus avós - nenhum deles egrégio -, mas que a trabalhavam e amavam e nada lhe pediam em troca.

     Longe vão esses tempos de sonhos pueris!... A criança cresceu e já não cede às emoções. Doce e suave é agora falar da pátria com indiferença, com a soberana indiferença de não lhe dever nada nem dela nada querer. E bom será que ela nunca de mim se lembre nem nada queira, para que eu possa ser sempre ignoto e feliz.

      Nesta hora – oh, que sublime fim de tarde! -, a pátria é apenas a terna memória que guardo de meus avós – nenhum deles egrégio -, mas que a amavam e nada lhe pediam em troca.



DILÚVIO - II
 

     Quando já pensava que as águas tinham regressado ao leito do rio; subitamente, o céu voltou a ter as cores plúmbeas que antecederam o grande dilúvio. Dei as necessárias instruções – nunca dei ordens – para minorar os estragos das altas e tempestuosas águas que se adivinhavam.

     No ínterim, chamei a mim a guarda da nossa caixa dos sonhos. Bem sei que o que tem que ser tem muita força – por favor não me macem mais e deixem-me usar os clichés a meu bel-prazer, que também tenho esse direito -, mas decidi que o meu destino ficaria, doravante, ligado àquela adorada caixa.

     Tudo aconteceu como previra, quando olhei o céu e observei o adensar e a negridão das nuvens. Implacável, o céu desabou de novo sobre a nossa casa, qual arca de Noé. Ainda que a força das águas fosse desmesurada para as nossas forças, com a inconsciência dos heróis, voltei a batalhar e, curiosamente a esperar, com a calma possível, que o céu parasse a devastação.

     Foram muitos os dias de inquietação, até as águas regressarem para aqueles mínimos que já não ameaçam a navegação no rio. Pude então dormir de novo a sono solto, tendo junto de mim a nossa bem-amada caixa dos sonhos.

     Até quando?, é a minha mais recorrente pergunta. Até um dia!