sexta-feira, 30 de novembro de 2012

FERNANDO PESSOA

Um tal Fernando Pessoa,
Que não era pensador,
Pensava por aí à toa,
Com ironia e rigor.

Travestido de Caeiro,
Ah, tinha tanta piada!...
Era alegre e galhofeiro,
Fingia não pensar nada.

Quando de Reis se vestia,
Era Horácio em pessoa.
As coisas que ele dizia,
Velho romano em Lisboa.

Ah, sempre tão sonolento,
Cansado, Campos dizia,
Com tristeza e desalento,
Que da vida nada queria!

Pessoa só não sabia
Amar Ofeliazinha:
Por isso, tanto escrevia…
Ela?! Pobre tiazinha!

CONTAS VELHAS

Quando em Abril pressentiste
Tua vidinha a mudar,
Prà rua logo saíste
Para o comboio apanhar.

Bonito o Maio primeiro!
Era tanta, tanta gente:
O doutor e o engenheiro
O pedreiro e o servente.

Toda a gente de mãos dadas
(Oh, grande fraternidade!),
Bandeiras desfraldadas
E vivas à liberdade.

Uma vez para o retrato
Quem pode levar a mal?
Meu país de fino trato,
De seu nome Portugal.

O pior veio depois.
Contidas as emoções,
Chamou-se p’lo nome aos bois,
Foram muitas as traições.
in QUADRAS QUASE POPULARES, Ulmeiro, Lx., 2003

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

JUNHO


Nas manhãs de Junho,
Quando o sol tudo doirava,
A nossa casa era também
A sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

Guardo memória, mãe!,
Da nossa rua térrea
E vejo-te jovem
Algodão dobando
À sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

Nas manhãs de Junho,
Quando o trigo amadurecia
E eu brincava, brincava
À sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

Fazia-te mil perguntas
- Mil ou muitas mais –,
E tu respondias sem enfado
À sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

E eu era feliz
E tu eras feliz, mãe!
À sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

Do outro lado da rua
À sombra da oliveira.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

DESENCONTRO

Sempre desejei
Um coração
De camponesa
Para gémeo do meu.

Só assim,
Pensava eu,
Poderia sentir,
Plenamente,
O olor
E o respirar
Da terra.

Outra coisa;
Porém, ditou
O poderoso destino.
E por isso
Vivo
O desatino
Dos desencontros.

Até um dia…
Ou talvez
Para sempre!

AMAR

É estar sentado,
Contigo,
À porta da nossa casa
Numa noite de Verão.

E ao luar,
Absorto
No voo
Dos meus pensamentos,
Comer tâmaras,
Em paz.


        E saber,
       Amor,
       Que esperas
       Que a brisa passe
       E eu procure,
       Ternamente,
       A tua face.

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria, 27 de Novembro de 2012 - Publiquei muitas fotografias e neste momento tenho que comprar um "armazém" para continuar a alimentar este "blogue" com imagens. Perdulário, vivi por aqui acima das minhas possibilidades. Amanhã, ou depois, hei-de voltar com fotografias.
     Até lá, façam o favor de ir lendo a minha humilde prosa e a minha não menos humilde poesia.

domingo, 25 de novembro de 2012

O RIO CORRE VELOZ

O rio corre veloz,
Leva pressa de chegar.
P’lo caminho move mós,
Ninguém o deve parar.


Corre o rio pressuroso,
Ansioso de chegar.
Corre lesto e curioso
Quer saber onde é o mar.


Só o meu amor não corre,
Ligeiro, prò pé de mim;
Por isso definha e morre
Como a rosa no jardim.

COM O FLUIR DO TEMPO


Novembro é tão deprimente...
Oh, que tristeza de mês!
Fogem-me os versos da mente,
Deserta a musa de vez.


Pra regressar em Abril,
Quando a vasta Natureza
Permite esperanças mil,
Ao mostrar sua beleza.


Com Junho vem o calor,
E os figos de São João.
Só não vem o meu amor,
Que esse não tem estação.


sábado, 24 de novembro de 2012

NÃO VENHAS, GEORGES!
     Não venhas, Georges!
     Que este país, Portugal, que outrora foi das naus e das frotas, é de novo a «apagada e vil tristeza» de que falava o Épico, onde só a mentira rende a par com a mais mesquinhez e a vingança.
     Não venhas, Georges!
     Que este país, Portugal, a minha amada Pátria, é hoje um território ocupado por répteis e outros seres invertebrados, que tudo nos sugam e levam, vorazmente.
     Não venhas, Georges!
     

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

UM DIA NUMA VIDA

Foi em 4 de Fevereiro. Era de 1975. Luanda.
À hora em que o sol se cola à pele
E os corpos pedem a clemência da sombra,
As ruas transbordaram de cor, cânticos e danças.

Neto, o da Sagrada Esperança, regressara
E, na escassa bagagem, só trazia sonhos.

Sonhos!, esse incrível alimento de que vivem as nações!

TERRAS DO MUNDO (MATA)

BENDITAS SEJAM AS NOSSA OLIVEIRAS
 Viram-te nascer e conhecem de cor os teus segredos. Foram a tua companhia, silenciosa e segura, durante centenas de anos.
     Deram-te sombra, nem sempre boa, é certo, nos tórridos dias do verão; a luz possível, antes do advento da electricidade; o calor nos invernos, às vezes, tão longos e rigorosos; o tempero para a panela pobre, que tornava o feijão e a couve menos ásperos; o dinheiro para muitos dos restantes e indispensáveis bens.
     E como a generosidade foi recíproca, também é justo que não olvidemos o muito e aturado trabalho e até servidão que foram exigindo a sucessivas gerações.
     De qualquer modo, moldaram-te o carácter. Com elas aprendeste a mansidão e a austeridade. Por isso mesmo, nunca foste dada a sobressaltos e a paixões. Em toda a minha vida, apenas ouvi falar de um crime passional, perpetrado por um homem, a quem o amor de uma mulher não quis servir. Foi muito antes de eu ter nascido e já passei há muito pelos cinquenta.
     Benditas sejam para sempre as nossas oliveiras!



quinta-feira, 22 de novembro de 2012

CASTELO BRANCO

Castelo Branco é cidade
De muito frio e calor.
Rica terra, na verdade,
P’ra viver c’o meu amor.

Nesta cidade vivi
Minha casta adolescência;
Tão casta que até perdi
Os restos da inocência.

Tinha duas fabriquetas,
Onde a matar se aprendia,
Dois jornais, alguns poetas,
Cheirinho a democracia.

Tinha dois chuis à civil,
Que acorriam ao Vidal
À cata de prosa vil;
Era assim, era normal.

E tinha o padre Anacleto
Que conferia à cidade,
Com o seu estilo reccto,
Um tom de fraternidade.

in QUADRAS QUASE POPULARES, Ulmeiro, Lx., 2003
MOIRINHAS ENCANTADAS

Vivo com esta mania
Das moirinhas encantadas.
São restos da fantasia
Dos velhos contos de fadas.
WIKIPÉDIA

Entre Silves e Granada,
Procuro as lindas gazelas.
Ò moirinhas de Granada,
Doces, amáveis e belas!

Nas margens do rio Arade,
Dou largas ao desvario.
Ò divina Sherazade,
Salta das águas do rio!
CMS (Câmara Municipal de Silves)

Em Silves, com Ibn ‘ Ammâr,
Queria, se pudesse ser,
De moiras tagarelar
E um vinho doce beber.

Al Mu ‘Tamid saudar
Com respeitosa emoção.
Poeta, mais devagar…
Ai, tanta divagação!

AUTOBIOGRAFIA BREVE


Cheguei numa manhã de Junho, segunda-feira, e já o sol ia alto. Chovia. Esperavam-me, ansiosas, minha mãe e minha avó paterna.
    
Cheguei, pois, em dia de sapateiro, como se dizia na minha aldeia.
    
Cheguei gato-esfolado, contaram-me mais tarde; todavia, com muita vontade de me fazer à vida.

     Ao contrário de Daniel Abrunheiro, que daqui quero saudar fraternalmente, eu não cheguei atrasado. Cheguei a tempo, muito a tempo, para da vida ir colhendo múltiplas alegrias e tristezas, que ela é temperada com umas e outras.

     Cheguei a tempo de conhecer um país pequenino, que os próceres do regime, dirigido pelo beirão de Santa Comba, estendiam da parte mais ocidental da Europa até Timor. Era um Portugal miserável, triste e sem humor, do qual herdei esta perseverante e amarga ironia.

     Cheguei a tempo de conhecer o exílio e de saber quão amargo é viver longe da Pátria, mesmo quando o afastamento resulta de uma decisão livre ou ditado pelo amor à liberdade; ou ainda, quando pela Pátria nos é imposto. Oh, como eu compreende o imortal Ovídio!

     Cheguei a tempo de ajudar à festa e da festa me embriagar e da ressaca, que ainda vai teimosamente perdurando, apesar do vinho bebido não ter sido muito e nem sempre ser da melhor qualidade. Se preciso fosse repetir tudo de novo, tudo de novo repetiria (Por favor, não me macem com os pleonasmos)!

     E por cá vou andando, com a pele às costas, nada reclamando do amor e dos amigos. Da Pátria sim, reclamo, porque sempre a quis mais livre e mais fraterna!


quarta-feira, 21 de novembro de 2012

VOU A SILVES ESTE VERÃO
                              Prò Zé Baeta
 Wikipédia
Vou a Silves este Verão
Pra subir o rio Arade.
Vai ser grande a emoção
Quando chegar à cidade,

Onde Al Mu’tamid, poeta,
Cantou as lindas gazelas
E com carinhosa seta
D’amor feriu muitas delas.

Quero andar pela cidade
E auscultar-lhe o coração.
Que esta moura ainda há-de
Dar-me, alegre, a sua mão.

Há-de ser neste Verão,
Que eu já morro de saudade.
Meu amor virou paixão,
Bela paixão, na verdade.


 in FRAGMENTÁRIA MENTE, Ed. Alecrim, 2009
PALESTINA MINHA AMADA


I

                                            (Jerusalém é o teu nome cidade)
                                                                    Ruy Belo

Trazemos nas veias
A cor das tuas pedras mártires.

Por isso perseveramos,
Por isso te amamos,
Por isso continuamos a morrer por ti.


II

No sul do Líbano,
Na faixa de Gaza,
Nas margens do Jordão,
Na diáspora multicontinental,
Choramos em silêncio as tuas mágoas
          Cidade mãe,
          Cidade santa,
          Jerusalém.

(Porque tu choras
As nossas mágoas também).


 III

Não haverá napalm,
Não haverá TNT,
Não haverá traição,
Que ponham fim
A esta vontade desmedida de vencer.

E um dia,
Pela estrada de Jericó,
Voltaremos:
A Ramala,
A Belém,
A Lida,
A Jerusalém.

Para comer laranjas em Jafa!,
Laranjas doces e suculentas,
Porque em todo o mundo
Não há laranjas como as de Jafa.

in FRAGMENTÁRIA MENTE, Ed. Alecrim, 2009











terça-feira, 20 de novembro de 2012

TERRAS DO MUNDO



Santa Iria - Cativo . cores outonais
REFLEXÃO

Não me venham falar da Pátria.
Não quero ouvir falar de pátrias
- nem desta, nem doutras -,
que as pátrias,
à semelhança dos deuses,
só sabem exigir sacrifícios,
desmedidos e vãos.

domingo, 18 de novembro de 2012

OS AMIGOS

     
     Até muito tarde, quando perdia um amigo, barricava-me no meu labirinto e vivia então momentos de verdadeira expiação e melancolia.
     Aprendi mais tarde – e só eu sei quão dura e longa foi essa aprendizagem! –, que as amizades podem ser duradoiras ou efémeras como as restantes coisas e sentimentos.
     Ao contrário de Narciso, só muito tarde aprendi a gostar de mim. Embriagado com os problemas dos homens e do mundo, sempre em movimento, fui também, até muito tarde, um território em permanente guerra civil, sem tempo e sem espaço para grandes congeminações.
     E não há qualquer contradição entre os tempos de expiação e melancolia e os tempos de guerra civil.
     Assinado o armistício, reconciliado comigo e com o mundo, encontrei tempo e espaço para pensar e amar (-me). Para descobrir, finalmente, que as amizades podem ser duradoiras ou efémeras como as restantes coisas e sentimentos.





MATA

Da Mata sou natural
- faço gala em o dizer -,
Meu torrãozinho natal
Que nunca soube entender.

Temos um conflito antigo
- Conflito sem solução -,
Mas ando sempre contigo
Tão juntinha ao coração!

Eu quero, ó minha terra
-Também pátria primeira -,
Acabar a nossa guerra,
Dar-te um ramo de 0liveira.





TERRAS DO MUNDO

 Alto da Eira
 Rua Srª do Almortão
Alto da Eira visto do Olival
COMO SALOMÃO
       (nos Cantares)

I
Só os deuses sabem,
Ó amada minha!,
Como o meu coração se agita
E a minha alma rejubila,
Quando entro na tua vinha
E saboreio os melhores cachos.

II
Só os deuses sabem,
Ó amada minha!,
Como é forte e doce o néctar precioso
Que saboreio nos teus lábios.

Por isso quero ser,
noite e dia,
Ó minha amada!,
O guarda da tua vinha.


                            Santa Iria, 2001

sábado, 17 de novembro de 2012

TERRAS DO MUNDO



Óbidos, um olhar diferente.

DO MEU DIÁRIO

Jerusalém vista do Monte das Oliveiras

Santa Iria de Azóia, 17 de Novembro de 2012 – Quando eclodiu a chamada “guerra dos seis dias”, em Junho de 1967, eu tinha 15 anos e era ainda um crente fervoroso. Fiquei maravilhado com a limpeza com que Israel venceu os árabes, ou seja, a Síria, o Egipto e a Jordânia. No fundo, não sei bem porquê, fiquei contente com a vitória de Israel, que era assim como que uma vitória do bem contra o mal.
     Eu nunca achei muita piada - e talvez aqui esteja uma explicação para a minha adesão à causa de Israel – às expulsões dos judeus de Portugal e a outras perseguições de que tinham sido e continuaram a ser alvo ao longo da História. Atreito a dar-me e/ou a encontrar-me do lado dos mais fracos, rejubilei, portanto, com a vitória de Israel sobre o Egipto de Nasser e sobre o restante mundo árabe. De facto, não deixava de ser prodigioso, para um jovem de quinze anos, aquele modo rápido e eficaz de fazer as coisas.
     Eu sabia da existência de um país chamado Israel, mas nada sabia do caminho percorrido até à sua independência em 1948. Depois fui lendo e cheguei à Declaração Balfour de 1917, ou seja, ao comprometimento da coroa inglesa perante Rothschild, um representante do sionismo e da banca mundial, de que tudo faria para dar um “lar” aos judeus. Depois fiz outro caminho: parti da declaração Balfour e vim andando até 1967. Afinal de contas, o Estado de Israel não era o paraíso terreal e fui construído à conta da destruição do povo da palestina.
     Em momentos mais irreflectidos, terei sido muito radical acerca de Israel. Reconheço que Israel tem direito a um território pátrio e que teria de ser naquela região do mundo. Não podendo coabitar israelitas e palestinos, ainda que em termos antropológicos sejam a mesma gente, havia que encontrar uma solução para ambos os povos, justa e exequível. Porém, com a ajuda dos que promoveram e assinaram quase de imediato a Declaração Balfour, Israel tornou-se um “grande” potência regional, que conta com imenso poderio militar.
     E como sou atreito a estar ou a dar-me com os mais fracos, mudei de campo, decorria o ano de 1970, quando vivia em França, nos arredores de Paris. E continuo a pensar que Israel tem direito a um solo pátrio, tal como os palestinos. Naquela parte do mundo, obviamente.           (continua)