domingo, 25 de fevereiro de 2018

CESÁRIO VERDE




Desenho de Rafael Bordalo Pinheiro


Descer a Guerra Junqueiro,
De manhãzinha, em Agosto.
É bom. Não custa dinheiro
E deixa-me bem disposto.

Como Cesário vejo
As feridas da cidade;
E não raro sinto pejo
De tanto luxo e vaidade.

Eu lembro-me do poeta
Pelas ruas a caminhar.
Trazia sempre a paleta
Para Lisboa pintar.

Era poeta e pintor,
Amigo da populaça
Cesário!... Um senhor
Tão sensível à desgraça.

Tinha aquela mania
De passear por Lisboa…
Quadros e fotos fazia,
Com palavras, numa boa.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

DESCIA A RUA




FILIPA BARATA

Descia a rua com passos incertos àquela hora da tarde de um Outono pálido e inodoro. Pensava nas coisas que aconteciam à sua volta e de como isso não a incomodava minimamente. Seria egoísmo? Perguntava-se.
A noite passada deitara-se tarde. Tinha fumado bastante e sentia agora as consequências disso. Sentia-se ligeiramente ensonada. Apanhar o autocarro ou um táxi? Quem era aquele homem solitário posto à beira de um passeio? Em que pensava? Andar pela rua tornara-se de facto, em certos dias, insuportável. Assistir à miséria de quem pede, acenando com coisas que por vezes nem chegamos a saber ao certo o que são com medo de vermos. Com medo de ficarmos com os olhos demasiado abertos. Não esses que temos na cara, mas os que guardamos dentro de nós.

Uma profusão de olhos dentro da barriga que nem sempre nos impedem de fazer coisas erradas.

Como se arquitectam frases? Como projectar sentidos? Linhas de mãos e pés, dedos sobre as coisas do corpo que não oferece resistência

Empresto a boca ao som que quer sair

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

DÁDIVA DIVINA




“Uma vida sem amor
não é vida não é nada”;
é ‘ma coisa sem sabor,
é ‘ma coisa desgraçada.

Amor, dádiva divina,
bem digo todos os dias.
Amar é a minha sina,
minha fonte de alegrias.

Quisesses tu, meu amor,
Viajar neste veleiro;
Ir, ao frio e ao calor,
Conhecer o mundo inteiro.


terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

COMO CRIANÇA

Filipa Barata

concluo do sangue
uma verdade inexprimível
sem som
que corre apenas
ao ritmo
da palavra
que se ergue
titubeante

como criança
pequena sílaba
incerta
procura a boca
que a diga

nem sempre procura
forma
quer às vezes
correr devagar
em silêncio
pelos corredores
do corpo

caminhar simplesmente
com os pés
assentes em algum
chão

in "PALAVRAS SEM CICATRIZES-POEMAS DE E PARA FILIPA BARATA", Edições Alecrim,
Santa Iria de Azóia, 2015.


domingo, 18 de fevereiro de 2018

NÃO TINHA UNHAS


Obra do pintor húngaro Károly Ferenczy.

Não tinha unhas,
dizia eu,
para tocar a cítara
de Orfeu.

Mas é verdade
Que outras cítaras
E outras guitarras
Toquei.

Com ou sem génio?
Outros que o digam,
Não eu!

sábado, 17 de fevereiro de 2018

COM AS PALAVRAS




É com as palavras
-essas humildes rosas –
que recrio o mundo
hora-a-hora.

Com as palavras
digo o teu nome,
o verde dos campos
o azul do Tejo.
E também os cais
de embarque e chegada,
as simples igrejas
e as grandes catedrais

Até um dia,
até ao dia,
em que chegue
a inevitável hora.



sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

O FASCÍNIO DA QUADRA




O meu amor não tem fim
e o desejo também não.
Fosse assim o teu por mim
e era a plena comunhão.

So tenho olhos para ti
- olha bem que sorte a tua!-,
Desde a hora em que te vi,
‘stou aqui e estou na lua.