domingo, 30 de setembro de 2012


VELOZ E INQUIETO COMO UM PARDAL

    
Passei pelos cinquenta, sempre a correr, veloz e inquieto como um pardal. E guardo ainda na cabeça, intactos, todos os sonhos que acalentei nas já distantes adolescência e juventude.
     Algumas artroses insistem em lembrar-me que o rio vai correndo, inexorável, em direção ao mar. De homem vou cumprindo ainda os meus deveres, religiosamente.
     Contigo, amor, continuo a sonhar quase adolescentemente!...
     Até um dia… Até um dia…

DO MEU DIÁRIO


Santa Iria de Azóia, 30 de Setembro de 2012 – Coelho, Moedas e Borges, disseram o que já sabíamos: recuaram com a TSU, porque o Zé Povinho encheu as ruas e quando o Zé Povinho enche as ruas podem acontecer coisas desagradáveis. Meteram o rabinho entre as pernas, provavelmente à espera de melhores dias, que, duvido, voltem a ter.
     O mais acintoso dos três foi Borges, que, numa atitude “revanchista”, disse que chumbaria os empresários portuguesas que não quiseram a sua bondosa TSU. Eu não sei qual é a cátedra de Borges, nem tão-pouco em que universidade ensina. Talvez na generosa Lusófona. Quer-me parecer que é por haver professores como Borges que Portugal, a Europa e o mundo estão neste estado. Muitos milhões de portugueses chumbaram Borges, porque Borges, simultaneamente empregado do Pingo Doce e conselheiro do governo para as privatizações, continua obstinado em empobrecer Portugal e os portugueses.
     Só um arrogante sem um pingo de vergonha na cara, depois de um rotundo não do seu povo, ousa vir com aquele aranzel. E desta feita em nome pessoal, disse, como se fôssemos todos estúpidos. É tempo desta lusitana inteligência, eminência parda deste governo, deixar de ser uma entorse na vida nacional. Com este, eu não gastaria um pataco, que já anda a comer por dois carrinhos, o Pingo Doce e o governo, sem que nisso veja alguma incompatibilidade..

sábado, 29 de setembro de 2012

TRRAS DO MUNDO




Lisboa oriental,
com o rio como elemento decorativo fundamental,
é uma cidade lindíssima.

TERRAS DO MUNDO




Fotografias da manifestação da CGTP-IN,
que encheu o Terreiro do Paço, baptizado Terreiro do Povo,
contra este 8Des)governo e a "troika"

QUADRAS INDIGNADAS


Esta gente tenebrosa,
Que governa Portugal,
É canalha e belicosa
E só quer o nosso mal.

Anda o povo deprimido
Por causa da recessão;
Agarra-se ao comprimido
Qual varinha de condão.

O sonsinho do Gaspar
Jamais expressa emoções.
Só fala em cortar, cortar,
Para dar aos galifões.

Este Gaspar dos cifrões
Não sabe literatura.
O outro sabia, o Simões,
E não era casca dura.

O legado de Pereira
- O pastel de importação -,
É um manual de asneira,
Sim, de asneira até mais não.

E veio do Canadá
Para salvar o país.
Quando fala saberá
De Portugal o que diz?

O Pedro de Massamá
Nunca será meu amigo.
Ele é do que pior há;
É joio a estragar o trigo.

Eu só falo do mandante,
Que o homem não me interessa.
É fracote e inconstante
E pra destruir tem pressa.

Este Pedro que não atina,
E nos quer empobrecer,
Que vá de visita à China
E fique  lá longe a viver.

Pedro Coelho está a mais,
Neste nosso Portugal.
Saia e leve outros pardais
Leve a praga, leve o mal.

Nota: são quase todas conhecidas

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 29 de Setembro de 2012 – O parecer do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida sobre “Um Modelo de Deliberação para Financiamento” é um documento repugnante. Ponto.
     E teve a vantagem de, no imediato, suscitar a indignação de muitos portugueses, incluindo, creio, a generalidade dos profissionais médicos. Não conheço nenhum membro do dito Conselho Nacional de Ética, nem tinha que conhecer, não sei, por conseguinte, quais são as suas profissões originárias. Sei, no entanto, que compartilham da ideologia dos chamados gestores de topo, essa cambada que se abotoa com milhões anualmente, mas acham bem sonegar a vida aos seus semelhantes.
     Este texto é assim mesmo que o quero: indignado! É um texto contra os pulhas que receitam austeridade, austeridade de utilidade duvidosa para os seus concidadãos, mas que dão ao luxo de gastar à tripa forra e de criarem para si fortunas verdadeiramente escandalosas. Os chamados economistas de topo, ou gestores de topo, que até podem ser engenheiros de uma coisa qualquer, são verdadeiros marginais, porque vivem à margem da sociedade que governam ou ajudam a governar.
     Este conselho de ética foi longe de mais ao querer decidir da vida e da morte de seres humanos. E merecem uma resposta em forma e em força de toda a sociedade. Era bom que Macedo se pronunciasse, apesar de nada de bom haver a esperar desta triste figura, que segundo um amigo meu, serve para qualquer ministério, porque só sabe conjugar dois verbos: cobrar e cortar. É desejável que também a igreja católica se pronuncie e faça homilias em defesa da vida. Voltarei ao assunto.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

POETAS DE LISBOA





DESEJO

I

Oh, gostaria tanto,
Que um verso meu
Gravado fosse
No bronze
Ou no mármore
E perdurar
Pudesse
Pelos séculos fora,
Às portas das cidade!

O meu coração
Conheceria
Então
A vera alegria.

Um só verso
... Me bastaria!

II

Ensinei gramática
Como manda a lei;
Mas às vezes,
Tinha vontade
De tudo subverter.

Era a força da criação,
Irrefreável,
A tomar conta de mim.

E nesses momentos,
Com generosidade,
Ensinei a transgredir.

III

Como poderá a vida
Correr-me de feição,
Se cumpro,
Rigorosamente,
O meu destino
De desafio
E transgressão?

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 28 de Setembro de 2012 – Amanhã, o povo vai tomar conta do Terreiro do Paço para se manifestar contra a política deste (des)governo. Para o Terreiro do Paço confluirão, amanhã, muitas dezenas de milhares de portugueses, cujas vidas conheceram uma degradação sem precedentes nos últimos dois anos. Será uma grande manifestação, que se quer vigorosa e ordeira. Sê-lo-á, seguramente.
     Amanhã, Arménio Carlos vai pedir o fim desta política e deste (des)governo, indiscutivelmente incompetente, mas suficientemente velhaco, ao ponto de quebrar a coesão nacional, tirando aos mais pobres, sem um fim à vista, e concedendo ou não mexendo em privilégios que até têm tradição histórica. É o (des)governo de Passos, que, diz-se, é uma criação de Ângelo Correia. É um (des)governo onde pontificam ainda Gaspar, Portas, Moedas e outros que tais, mais preocupados com os desejos de Dona Ângela e dos mercados do que com o seu próprio povo. Este (des)governo tem tido – e provavelmente continuará a ter -, seguro de vida em Belém.
     Se nada for feito no imediato, se os portugueses não se fizeram ouvir energicamente, dois mil e treze vai ser um ano de mais esbulho ainda, através do IRS e do IMI. E em dois mil e treze, mais ou menos por esta altura, estar-se-ão a discutir novos aumentos de impostos e taxas, que os rapadores do pote são insaciáveis. É imperioso, portanto, que o povo se faça ouvir, porque estes mentirosos já não têm qualquer legitimidade para ocupar o poder. Quem chega ao poder através da mentira e na mentira persevera, não pode continuar a mentir. Rua!

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

TERRAS DO MUNDO


TENTATIVA

Canção de amores vadios
- Vai de barco é marinheiro -,
Não enjeita desafios,
Dá volta ao mundo inteiro.

Em Lisboa junto ao Tejo,
Tem o fado sua morada,
Um afago, um desejo,
Uma rixa anunciada.

Fado velho sempre novo,
Alma vera deste povo.

 


Canta amores traídos,
Ausências, amizades,
Em versos muito sentidos
E repletos de saudades.

Onde um tintinho houver
É cantado à desgarrada.
Na presença da mulher
É canção civilizada.

Fado velho sempre novo,
Alma vera deste povo





NA MINHA BIBLIOTECA

Na minha biblioteca
Há mais mortos do que vivos.
É fácil e nunca seca
Conviver com tantos divos!

Com estes defuntos queridos,
Aprendo no dia-a-dia.
Sisudos ou divertidos,
Todos me dão alegria.

CARLOS DE OLIVEIRA

Oléo de Mário Dionísio (NET)

Lisboa, l de Julho de 1995 - Carlos de Oliveira morreu há catorze anos. Que a terra e o tempo lhe sejam leves, como leves tornou as palavras, mesmo quando lhes deu a têmpera do aço.
      Porventura uma das vozes mais originais da literatura portuguesa do séc. XX, o autor de Micropaisagem introduziu na poesia o conceito de trabalho oficinal. E, provavelmente, mais do que ninguém, contribuiu para derrubar o mito romântico do poeta como ser inspirado por Deus.
     Ainda que não seja dado a profecias, não hesito em afirmar que Carlos de Oliveira há-de perfilar-se um dia entre os grandes artistas da palavra de língua portuguesa, enquanto que os pigmeus que deliberadamente o esquecem hão-de apodrecer inexoravelmente nas despensas húmidas e esconsas das bibliotecas.
DISCURSO

     Muitos de nós que temos mãos e temos pés, muitos de nós que fazemos adeus aos comboios nas estações, muitos de nós que passeamos o conformismo pelas ruas da cidade, muitos de nós, um dia, talvez um dia, saibamos quão inúteis foram os nossos braços, as nossas pernas, as nossas bocas, os nossos ouvidos e os nossos cérebros.
     Talvez um dia, quando violarem o silêncio da nossa inutilidade e já for demasiado tarde, vejamos então como eram irreais os nossos primorosos raciocínios.
     Nesse dia, não haverá lugar para lágrimas e lamentações. Nesse dia, morreremos como cães: sem palavras, sem sonhos, acéfalos, loucos.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

DO MEU DIÁRIO

WIKIPÉDIA

Santa Iria de Azóia, 26 de Setembro de 2012 – O ano de 1975, muito agitado aqui no rectângulo e “províncias ultramarinas”, vivi-o quase na totalidade em Angola, onde tudo começou a azedar quase a seguir aos acordos do Alvor, celebrados em 15 de Janeiro. Assisti à chegadas de Agostinho Neto, a 4 de Fevereiro, data mítica para o MPLA; pouco tempo depois seria a vez de Jonas Savimbi, em quem os brancos depositavam uma imensa esperança, chegar a Luanda; Holden Roberto, não sei se alguma vez terá pisado solo luandense.
     A paz em Angola foi, portanto, sol de pouca dura. Ainda se constituíram equipas quadripartidas (patrulhas mistas), a fim de promover o entendimento entre os angolanos e também para aprenderem as técnicas de preservação da ordem pública. Os homens do MPLA eram, provavelmente, os mais letrados; os da FNLA que não falavam português eram os mais aguerridos; os da UNITA, naqueles primeiros tempos, mostravam-se os mais cordatos. A FNLA, apoiada por Mobutu e pelos EUA, era composta por gente recrutada fora do país, que falava sempre em francês. Os homens de Holden Roberto complicaram bastas vezes a vida de militares portugueses.
     Os portugueses residentes em Angola, e as crias nascidas naquele território da África dita portuguesa já adultas, pensaram até muito tarde que poderiam permanecer e acalentaram a ideia de uma solução idêntica à da antiga Rodésia. Estavam à espera de múltiplas ajudas que lhes permitiria expulsar o MPLA e a FNLA, para, depois, com o movimento de Jonas Savimbi governarem Angola. Os brancos que iam ao cinema, e que se sentavam junto dos militares portugueses, faziam provocações de toda a ordem e não se coibiam de falar dos projectos para o futuro. Nunca pensaram que teriam que regressar a trinta e nove à hora, naquela que terá sido a maior ponte aérea alguma vez realizada.
     Num certo sentido, a descolonização em Angola foi precipitada. Reconheço, sem quaisquer dificuldades, que se jogaram em Angola muitos interesses que colidiam com os dos portugueses lá residentes; todavia, é bom reconhecer também que seria difícil fazer melhor, tendo em conta os tais interesses que ali se jogavam.
     Vieram e Portugal tratou-os com enorme generosidade. A administração pública absorveu muitos milhares, a outros foram dadas condições para desenvolveram actividades comerciais e industriais. Raros terão sido os retornados que se dedicaram aos trabalhos do campo e da construção civil, na qualidade de camponeses ou operários.
     Mas ficaram até hoje com a pedra no sapato, porque sempre acharam que deveríamos ter-nos imolado por eles em Angola. Apesar de terem tido condições que os outros portugueses não tiveram, continuaram a considerar-se espoliados, mesmo quando ocupam altos cargos na administração pública e até na governação. Não compreendo, por isso mesmo, por que razões tratam agora tão mal os funcionários ao serviço do Estado.

PÓVOA DE SANTA IRIA
AVIEIROS DO TEJO




TORGA, sempre

vidaslusofonas.pt/miguel_torga.htm
Lisboa, 29 de Agosto de 1994 - Rabiscar notas, mesmo sob a forma de diário, não é tarefa fácil. Ainda que a escrita me esteja na massa do sangue; alinhar notas que suscitem interesse, numa prosa minimamente escorreita e ágil, repito, não é tarefa fácil. E há dias em que o vazio é total e o branco assusta. E no entanto, escrevo pelo prazer que a escrita me proporciona e não com a intenção de ganhar a vidinha. De resto, apenas um escrito me rendeu meia dúzia de patacos.
     Concordo que um diário seja um espelho - um espelho muito peculiar - que há-de reflectir do autor a imagem desejada. Torga faz passar meia dúzia de ideias fortes: um homem na cidade, desenraizado, que procura no espaço primordial de S. Martinho de Anta a força para perseverar nos muitos desafios da vida; um homem dotado de uma grande firmeza de ânimo, à boa maneira dos estóicos, visível já nos textos escritos na prisão do Aljube, nos anos trinta; um homem solidário com os seus semelhantes e preocupado com a condição humana; um homem ousado, quando critica o Quixote de Cervantes; etc. Mas há outro Torga que se vai insinuando e que nada tem a ver com o caçador de S. Martinho de Anta: o artista que viaja e lê os autores mais significativos da literatura europeia (Ibérico por convicção, a sua Europa estende-se até aos Urais); homem culto que é capaz de se pronunciar acerca de Rembrant e Beethoven. Ao fim e ao cabo, apesar de reivindicar persistentemente as suas raízes camponesas, lá bem no fundo, Torga não despreza um certo cosmopolitismo. E aqui encontramos, seguramente, uma das razões da sua candidatura ao Nobel.
     Seja como for, não há que levar a mal que o autor de Os Bichos tenha as suas estratégias. É um direito que lhe assiste. Há que respeitá-lo enquanto homem e criador.
     Retomando o fio à meada e para concluir, compartilho da ideia de que um diário, construído texto a texto, como quem constrói uma casa, é um acto criador como outro qualquer. Com a vantagem de o seu autor se despir perante os leitores, enquanto pessoa empírica, e não poder gozar de um estatuto idêntico ao do narrador que, no entender de Roland Barthes, “é um ser de papel”.
RUY CINATTI

Causas perdidas
são as
que me dão vida.

Quero-te,
ó minha pátria!

Aterro
a minha casa
construo outra
igual, parecida.

in MEMÓRIA DESCRITIVA, Portugália Editora, s/d,

terça-feira, 25 de setembro de 2012

ROSAS PARA VOSOTROS!




ANTÓNIO NOBRE
Foto-Net-Google
A Paula Nina Morão
  
     Às vezes, dou por mim agarrado ao de António Nobre e sinto uma imensa tristeza. Eu sei que parte daquele sofrimento é fingido, porque todos os poetas são fingidores. Mas usa uma máscara tão autêntica, tão dramaticamente convincente, que a tristeza de Anto me esfarrapa todo por dentro.
     Às vezes, ponho-me a imaginar António Nobre, sozinho, nas ruas de Paris, rememorando a igreja de Leça, o mártir S. Sebastião, o Senhor de Matosinhos... Eu imagino Anto, naquele ambiente moderno e cosmopolita, corroído de saudades dos manéis, do mar, de barcos, de fanfarras, eiras, pescadores, camponeses, arraiais.
     Às vezes, agarrado àqueles versos que até parecem conversa fiada, pelos meus olhos perpassa um Portugal beato, atrasado e rural. Que permanece, cem anos depois de Nobre, apesar de tudo, tremendamente real.

in FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx., 2005




CESÁRIO VERDE,
UM POETA CITADINO QUE AMAVA
O CAMPO E A NATUREZA


Lisboa, 23 de Maio de 1994 – Todos os anos, em Maio, me reencontro com Cesário Verde. Grato reencontro, diga-se, porque me permite falar do maior poeta português do séc. XIX, e, quiçá, um dos maiores da nossa História da Literatura.
        Ouve-se dizer, com alguma frequência, que Portugal é um país de poetas. Não compartilho desta opinião, que rejeito totalmente, porque no século passado só temos quatro nomes para reter: Garrett, Antero, António Nobre e Cesário Verde. Então parece-me mais adequado falar-se de país de versejadores. Mas é de Cesário que quero falar.
        Foi curta a vida de José Joaquim Cesário Verde. Decerto, porque Deus não podia dispensar, junto de si, a voz pouco hierática do autor d' O Sentimento dum Ocidental, para que tudo no céu continuasse eternamente equilibrado. Deixou, contudo, marcas indeléveis na sua passagem breve pela Terra. A Cesário se haveriam de referir dois dos heterónimos de Pessoa: Campos e Caeiro. Um para lhe chamar «Mestre»; o outro para lhe lamentar a desgraça de ser um camponês preso, mas em liberdade, pelas ruas de Lisboa. Ambos tinham razão. Sem Cesário, digo eu, não tinha existido Campos tal como o conhecemos. Na verdade, Cesário, um poeta citadino, amava muito o campo e a Natureza. E a cidade.
TORGA - UMA REFERÊNCIA ÉTICA


Santa Iria de Azóia, 3 de Maio de 1994 - Torga tornou-se uma referência obrigatória na nossa literatura contemporânea. Tem-se falado muito dele para prémio Nobel. Se tal vier a acontecer, saudá-lo-ei neste diário.
        Não considero Torga um artista excepcional. Reconheço, contudo, que perseverou toda uma vida na defesa dos valores da terra portuguesa. A sua poesia e a sua prosa são feitas com palavras elementares, como elementares resultam as suas ideias. Mas possuem aquela verosimilhança, aquela autenticidade, que nos conquistam de imediato. Bom seria que outros criadores tivessem o dom de nos seduzir como o autor d ‘ Os Novos Contos da Montanha.
        Homem de cerviz direita, é um daqueles portugueses que podemos indicar como exemplo aos nossos filhos, num tempo em que por cá pululam os mais submissos invertebrados; num tempo em que as mais impudicas canalhices caíram na banalidade; num tempo em que a lei é o safe-se quem puder.
     Torga é, antes de mais, uma referência ética.                                       

segunda-feira, 24 de setembro de 2012


imagem do GOOGLE

ALEGRE A CIGARRA CANTA

Alegre a cigarra canta.
É primavera ou verão.
E com alegria tanta,
Bate f’liz meu coração.

Canta cigarrinha amiga!
Enche a Terra de alegria.
Não sejas como a formiga,
Que trabalha noite e dia.

Indizível alegria,
Que só meu coração sente…
Ah, pudesse esta harmonia
Perdurar eternamente!

Gustave Doré-WEB

NOVA VERSÃO DA FÁBULA
           DA CIGARRA E DA FORMIGA

     No pico do inverno, a cigarra bate à porta da formiga e esta pergunta:
- Quem é?
- Sou eu, a cigarra.
- Que queres?, perguntou a formiga:
- Quero apenas falar contigo, formiga, respondeu a cigarra.
- Já conheço os teus truques desde que o mundo é mundo. Estou farta da tua música.
- Não sejas parva , formiga. Abre lá a porta!...
A formiga abriu o postigo e deparou com a cigarra toda anafada e de casaco de peles. È então que a cigarra diz:
- Vou para Paris. Vim despedir-me de ti.
  Estupefacta, a formiga replicou:
- Olha, cigarra, já que vais para Paris, se vires o La Fontaine, manda-o f... com a história da fábula.

DO MEU DIÁRIO


Lisboa, 1 de Junho de 1994 – Dai saúde, Senhor, aos nossos bem-amados Chefes, para que nos possam guiar pelos Teus caminhos, nesta dura peregrinação que é a vida.
     Protegei, Senhor, os nossos mui queridos Chefes, todos sem excepção, para que, mediadores entre a Luz e as trevas, nos possam iluminar os passos, nesta miseranda passagem pelo mundo.
     Daí sabedoria, Senhor, aos nossos amantíssimos Chefes, também eles como nós pecadores, mas por Vós eleitos, para não nos deixarem pôr o pé em ramo verde, nesta lastimável passagem pelo reino das sombras.
     Amai-os, Senhor, infinitamente, para que eles nos possam amar nesta difícil caminhada para a Glória, ou, no mínimo, para que não nos possam tramar.

          Dai-lhes saúde, Senhor!
          Protegei-os, Senhor!
          Dai-lhes sabedoria, Senhor!
          Amai-os infinitamente, Senhor!

Amai-os, Senhor, como eles nos amam.

domingo, 23 de setembro de 2012


O FASCÍNIO DA QUADRA

Este Pedro que não atina,
E nos quer empobrecer,
Que vá de vista à China
E fique  lá longe a viver.

Pedro Coelho está a mais,
Neste nosso Portugal.
Saia e leve outros pardais
Leve a praga, leve o mal.
Ticiano-Wikipédia

ARIADNE -I

Ariadne chorou,
Chorou muito sentida,
Quando Teseu,
Sem uma palavra,
A deixou.


Podia ter chorado
O novelo do fio
Ou a espada
Que lhe deu. Não.
Ariadne chorou,
Traída e magoada,
O modo
Como Teseu zarpou:
         Sem uma carícia,
          Sem um gesto,
          Sem uma palavra.



ARIADNE -II


Quisesses tu
- Ó doce filha de Minos! -
Dar-me
Por amor
Um novelo de fio
Igual ao de Teseu...

Desvendados os mistérios
Do meu labirinto,
Num veleiro de sonho,
Sem hesitação,
Levar-te-ia
Onde nos levasse
O coração.

                                              
in FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx., 2005