quinta-feira, 28 de março de 2013

QUEM DIRIA
 

E quem diria
Que Rasalia
Tem nome de rua,
Na Charneca da Cotovia?

Há sempre
Um lugar do mundo,
Onde ecoa
O nome de um poeta.

DO MEU DIÁRIO


Santa Iria de Azóia, 4 de Abril de 2011 – A situação económico-financeira de Portugal é dramática. Talvez hoje muito mais do que ontem, mas que importa tudo isso aos rapazes que são governo e àqueles outros rapazes que se preparam para o ser, se as suas vidas estão orientadinhas e os seus patrimónios lhes garantem um futuro sem grandes preocupações?
     Preocupações, e grandes tenho-as eu, que qualquer dia sou um sexagenário e ainda não tenho estatuto nem conta bancária farfalhuda, cá ou algures, que me permita encarar o futuro com risonho optimismo.
     Concedo que fui sempre um rapaz bisonho, ou seja, sem destreza e sem arte para grandes competições, apesar de ter entrada para a função pública mediante concurso público e ter sido o terceiro, com a mesma nota do segundo, com um pavilhão da antiga FIL cheia de candidatos. Ah, se tivesse sido nomeado, outro galo cantaria!...
     As minhas doentias preocupações radicam neste mal-estar quotidiano que os agiotas produzem e as televisões multiplicam e ainda, e sobretudo, no facto de ninguém parecer disposto a dizer: chega! O José, que preside ao ministério e que porventura ainda acalenta esperanças de voltar a presidir, não está na disposição de querer entregar o ouro ao bandido; e o Pedro, digo o, porque me entra pela casa dentro várias vezes ao dia, mandou abaixo o governo do José e não tinha, e continua a não ter, nada para nos oferecer em troca, para além de promessas vagas de que quer fazer melhor.
     É certo que eu já estou mais do que farto de José; porém, também já estou farto de Pedro, porque ambos contribuem para este clima deletério em que Portugal e os portugueses definham. O que é que será preciso fazer para correr com José e Pedro e ousar algo de novo para Portugal? E para que serve aquele senhor que diz que é mais correcto dizer éfffffffffffffffffff, éééééééééé´, éfffffffffffffff, éééééééééé´ e não FMI?

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 29 de Março de 2011 – Este é o mês de Março de todas as incertezas. Virá o FMI, não virá o FMI?; pede-se ajuda ao BCE, não se pede ajuda ao BCE?; Portugal vai aguentar-se, Portugal vai claudicar?; etc.

     Já hoje ouvi dizer que os ricos perderão sempre mais do que aqueles que nada têm. É claro que aqueles que têm muito, ainda que muito possam perder, alguma coisa lhes há-de sobrar; porém, quem nada tem, nem lamentar se pode de ter perdido. Mas parece que o argumento para comer e calar é assaz falacioso, porque há sempre aqueles que vão pescando, e muito, mesmo quando as águas estão mais turvas. De resto, eu penso que eles são pescadores de águas turvas.

     Eu tenho para comigo, e parece que não estou sozinho, que o mal maior de Portugal é o das desigualdades. Não fosse Portugal um país tão desigual e talvez conseguíssemos, sem estranhos a meter o bedelho, resolver os nossos problemas. O mal de Portugal é ter excelentes pescadores, poucos, que, por sinal, contam com grandes ajudas entre aqueles que vão decidindo o nosso destino colectivo e se apropriam de todo o pescado.

     O mal de Portugal, aqui para nós, é a meia dúzia de vampiros que come tudo, como reza a canção, e não deixa nada.

DO MEU DIÁRIO


Santa Iria de Azóia, 24 de Março de 2011 – Com toda a oposição - mesmo aquela que só o é, porque quer rapar no “pote”-, a votar contra o PEC4, Sócrates foi ontem, objectivamente despedido. No entanto, suponho que é assim que manda a CRP, ficará ao leme da (des)governação até à tomada de posse de um novo (des)governo.

     Eu não gosto de Sócrates - nem deste PS -, que, em nome não sei bem de quê, sempre defendeu os poderosos e maltratou os humildes. Sócrates, tal como Fernão Lopes disse de João I, o Mestre de Avis, é um cordeiro perante os mais fortes e um leão perante os mais fracos. Sócrates não deixa saudades a ninguém, a não ser aos rapazes que promoveu e protegeu. A sua governação, jamais merecerá um “requiem”.

     Desiludam-se, no entanto, os que esperam que tudo vai mudar para melhor. Silva Pereira avisou ontem no parlamento que quem pensa que já viu tudo há-de ter grandes surpresas futuras. Pedro Silva Pereira sabe certamente do que fala. E se disse o que disse, não é preciso ir a Delfos para ler o futuro próximo deste velho reino.

quarta-feira, 27 de março de 2013

DO MEU DIÁRIO

CONVERSA SOBRE VINHOS


Restaurante "Muralha", C. Branco
Lisboa, 26 de Maio de 2011Na sua imensa sabedoria, diz o povo, e a meu ver com razão, que o sabe tudo ainda não nasceu. É evidente que a sabedoria popular vale o que vale; mas, de qualquer modo, deve ser valorizada. Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje é um daqueles ditados que podemos e devemos levar a sério.

     Eu que pensava que sabia tudo, ou quase tudo, em relação ao falar da Mata, de onde saí definitivamente há mais quatro décadas, aprendi no sábado passado, em amena cavaqueira com o Manuel de Sousa, que de um vinho se pode falar sem aqueles lugares comuns dos enólogos e de uma forma muito mais divertida.

     Estávamos a beber um tinto e a ver a vinha onde as uvas crescem e amadurecem, quando o Manel qualificou o vinho de marrão. Percebe-se intuitivamente que se está a falar de um vinho muito graduado, que, bebendo-se sem precauções, se pode tornar implicativo. E continuando a dissertação sobre vinhos, ainda me falou dos vinhos cantantes e dançantes. É evidente que as últimas qualificações já têm a ver com o comportamento de cada qual relativamente à ingestão dos crudes.

     De qualquer modo, talvez naquelas garrafas de vinho de 14º, ou mais, se pudesse escrever no rótulo: vinho marrão. Fica à consideração dos enólogos.

    CONVERSA TRIVIAL

     Contigo luto, quotidianamente, embora saiba perdidas todas as batalhas. Outros mais sábios, e porventura mais ousados, me precederam nesta insana pretensão de querer derramar luz sobre as trevas; mas perseverei sempre, sempre lutarei para que um verso meu inscrito seja o grande memorial que hão-de construir às portas da grande cidade.
     Conversa trivial, bem sei, de simples humano, a quem falta a técnica do lapidador e a ligeireza dos pássaros. Mas lutarei até ao fim, ó distante posteridade, consciente de quão difícil é este combate!

terça-feira, 26 de março de 2013

BENDITAS SEJAM AS NOSSA OLIVEIRAS
  
  

Viram-te nascer e conhecem de cor os teus segredos. Foram a tua companhia, silenciosa e segura, durante centenas de anos.
     Deram-te sombra, nem sempre boa, é certo, nos tórridos dias do verão; a luz possível, antes do advento da electricidade; o calor nos invernos, às vezes, tão longos e rigorosos; o tempero para a panela pobre, que tornava o feijão e a couve menos ásperos; o dinheiro para muitos dos restantes e indispensáveis bens.
     E como a generosidade foi recíproca, também é justo que não olvidemos o muito e aturado trabalho e até servidão que foram exigindo a sucessivas gerações.
     De qualquer modo, moldaram-te o carácter. Com elas aprendeste a mansidão e a austeridade. Por isso mesmo, nunca foste dada a sobressaltos e a paixões. Em toda a minha vida, apenas ouvi falar de um crime passional, perpetrado por um homem, a quem o amor de uma mulher não quis servir. Foi muito antes de eu ter nascido e já passei há muito pelos cinquenta.
     Benditas sejam para sempre as nossas oliveiras!

AO CONTRÁRIO DE REIS
   
 
De mãos entrelaçadas, vamos, Marta, até à beira rio. E aproveitemos, quais hedonistas inveterados, a mansidão da tarde para nos amarmos, sôfregos, como os velhos faunos, que as nossas vidas são breves e o tempo muito veloz.
     De mãos dadas, vamos, Marta, até à beira rio. E saibamos desfrutar todos os instantes, e, juntos, ouvir apenas o apressado bater dos nossos corações, indiferentes ao rio e a quem por nós passa.

Amemo-nos, pois, uma e outra vez e outra ainda, para, quando o tal barqueiro vier separar-nos, de nada possamos lamentar-nos, nem do Amor sermos devedores.

De mãos dadas, vamos, Marta, até à beira rio.

in AO SABOR DOS DIAS, a publicar brevemente.

segunda-feira, 25 de março de 2013

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 8 de Fevereiro de 2011 – Nos finais dos anos sessenta, Castelo Branco não tinha – ou eu não me lembro de ter-, uma livraria a sério. E no entanto, lia-se muito na capital da Beira Baixa. E coisas com qualidade.
     É certo que a Semedo, ao cimo da rua D. Dinis, papelaria e livraria, tinha sempre alguns títulos nacionais e estrangeiros com muito interesse. Foi lá que comprei o meu primeiro Rimbaud e também José Gomes Ferreira, que era então um poeta muito em voga. Nuno Semedo, sempre descaído para o lado da literatura, para além de ser uma pessoa afável, também ia dando algumas dicas em relação a certos títulos e autores.
     Porém, creio que o local dos livros por excelência era o quiosque Vidal, onde um tal José Fernandes – é o do Vidal, não o do Eça -, aconselhava e guardava os livros que iam resistindo à brigada dos costumes. O Zé Fernandes lia muito; nomeadamente lombadas, facto que lhe permitia depois fazer as suas próprias sinopses. Acresce que, apesar da sua juventude, José Fernandes era um “jeune homme” de formação democrática.
     O quiosque Vidal, que ainda existe, é hoje um sítio atascado de jornais e revistas, com alguns livros ainda nas prateleiras mais altas, mas já não é o ponto de encontro de uma certa intelectualidade albicastrense. Contudo, é talvez o sítio onde se podem encontrar mais publicações de carácter etnográfico.
     As papelarias Nogueira, Narciso e S. José, também comercializavam livros; porém, faltava-lhes a qualidade da Semedo e do quiosque Vidal. Ou melhor, ter-lhes-á faltado Nuno Semedo e José Fernandes.

NA MINHA BIBLIOTECA




Na minha biblioteca
Há mais mortos do que vivos.
É fácil e nunca seca
Conviver com tantos divos!

Com estes defuntos queridos,
Aprendo no dia-a-dia.
Sisudos ou divertidos,
Todos me dão alegria.

sábado, 23 de março de 2013

DO MEU DIÁRIO

Foto: Associação José Afonso

Lisboa, 20 de Outubro de 1997 - Óscar Lopes, Homem de cerviz direita, que, por mais voltas que se dêem, terá de ser encontrado entre os portugueses mais generosos deste nosso tão peculiar séc. XX, não foi convidado para integrar a representação portuguesa à feira do livro de Frankfurt.

     Se Portugal fosse um país decente - e tudo indica que o não é -, o co-autor da História da Literatura Portuguesa e um dos ensaístas mais fecundos de toda a nossa História Literária, não teria sido esquecido pelos senhores do mando. À generosidade de Óscar Lopes, que deu a ler aos portugueses dezenas e dezenas de autores, respondem as autoridades com o olvido.

     Sei que Óscar Lopes paira mais alto. Sei que este é apenas mais um acidente com que a Pátria o quis brindar. Não porque a Pátria seja madrasta ou velhaca. A Pátria, entidade abstracta e mais ou menos mítica, nunca poderia ser apodada com tais epítetos. Estas coisas acontecem, porque aos destinos da Pátria presidem criaturas menores e intolerantes, capazes de glorificar todos os champalimauds e de crucificar todos os Camões.


DO MEU DIÁRIO

Esta gracinha
 é a principal responsável pelo estado a que a Europa
 chegou e não há que branquear ou dizer que não.

   Em Fevereiro, a cobrança do IRS terá tido, segundo a imprensa, um aumento de 252 milhões de euros. Como aumentou o desemprego, no entretanto, este acréscimo ficar-se-á a dever ao reescalonamento do imposto e à introdução dasSobretaxa e Taxa adicional de solidariedade”. No fundo, este acréscimo resulta exclusivamente do aumento brutal da carga fiscal.

      Com a economia em forte recessão, todos os impostos tenderão a baixar, nomeadamente o IVA e o IRC. O decréscimo da receita do IVA, obrigará os crânios que nos governam sob a batuta da “troika”, a irem de novo ao bolso dos que já contribuem. E a classe média, que andou sempre a votar maioritariamente no centrão de negócios e interesses, vai gemer de novo. Diz-se que novas medidas serão anunciadas brevemente para produzirem efeitos a partir de Maio.

     Correr com esta gente, com esta gente que só pensava no pote para se lambuzar com ordenados, tachos e mordomias muitas, é urgente, antes que este país se torne num imenso manicómio.

quinta-feira, 21 de março de 2013

BOM DIA POESIA

Hoje amanheci
sem versos para vos dar.
E logo hoje
que tanto queria
convosco
este dia celebrar.

A musa dorme ainda
dentro de mim.
Noutros corações
acordará mais cedo
e versos não faltarão.

Celebremos já
com o doce aroma
duma magnólia
que aqui deixo
para todos vós.

Bom dia, Calíope!
Bom dia, poesia!

quarta-feira, 20 de março de 2013



VISÕES

Há qualquer coisa no ar,
Que me provoca alergia.
Não consigo respirar
E só vejo porcaria.

Vejo gente interesseira
De altos valores falar.
Consegue, desta maneira,
O povo ignaro enganar.

 Vejo lobos com vontade
De sugar as grandes tetas,
Míngua de qualidade,
Muitas mentiras e tretas.

 Gostava que Portugal
Fosse limpo e respeitado.
E não este lodaçal
Corrompido e aviltado.


 DE CALÇAS NA MÃO

A lusitana mania
De esperar por quem não vem
Provoca melancolia,
Muito mal e nenhum bem.

Sempre de calças na mão
Ou esta à esmola estendida.
Tão estranha condição,
Tornou-se um modo de vida.

Era preciso matar
Esse rei Sebastião,
Que não pára de enganar
Anossa triste nação!

 Ao mito do desejado
Dê-se um combate eficaz.
Traz este país castrado
Ou capado, tanto faz.


A PRIMAVERA

     Quando as laboriosas andorinhas chegavam, anunciando a Primavera, revigorada, a esperança enchia os nossos corações.
     As ruas eram então inundadas de cor e alegria, de prolongados bruás e de muitas correrias.
     Irresistivelmente seduzidos, completamente ébrios, fazíamos desses primeiros dias de sol uma festa permanente.
     E brincávamos, todo o dia, com imaginários brinquedos e alheios ao fluir do tempo.

terça-feira, 19 de março de 2013

DO MEU DIÁRIO


Santa Iria de Azóia, 19 de Março de 2013 – Nunca gostei do senhor Belmiro e tenho feito questão de o dizer e escrever sempre que me é possível. Acho-o arrogante e nada amigo do povo que lhe enche os bolsos. É um daqueles indivíduos que chupa o país até ao tutano e ainda se sente no direito de maltratar quem o tem enriquecido.
     O senhor Belmiro aconselha os governantes a não jogarem o jogo dos protestantes, ou seja, a viverem numa redoma, onde não cheguem os ecos do descontentamento e da indignação. O senhor quer o país governado como um supermercado. De resto, para o senhor Belmiro, Portugal é os seus supermercados.
     O senhor Belmiro não percebe porque não pode haver uma economia baseada em salários baixos. Não percebe, porque quer os portugueses, ou a sua esmagadora maioria, a consumir os seus produtos ”linha branca”. No fundo, o senhor Belmiro pensa sempre baixo, ou seja, ao rés-dos-seus-supermercados.
    

segunda-feira, 18 de março de 2013

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 3 de Julho de 1995 - O PS e o PSD, sabe-se, são dois partidos com vocação para o exercício do Poder. Os restantes da panóplia também e por isso existem. Porém, no momento presente, são estes e não outros que hão-de governar Portugal.
     O que me perturba nesta realidade, não é o facto de existirem dois partidos com vocação de poder. O que me perturba e constitui uma perversão da democracia portuguesa é o facto destes dois partidos não permitirem aos portugueses uma verdadeira alternativa, porque, tirando a questão das liberdades cívicas e dos direitos e garantias dos cidadãos, o PS é demasiado igual ao PSD. É demasiado igual em matéria económica e financeira; é demasiado igual no modelo de construção europeia; é demasiado igual na apetência pelos tachos; é demasiado igual no querer sorver a manjedoura do orçamento até ao tutano.
     A alternativa, para ser verdadeira, não pode situar-se apenas ao nível da retórica. O PS tem de dizer o que quer em matéria de política agrícola; tem de dizer como vai restaurar o nosso caduco e moribundo tecido industrial; tem de dizer o que vai fazer em matéria de justiça tributária; tem de dizer o que vai mudar em matéria de política social.
     Se chegar ao poder e não praticar uma política diferente, nomeadamente uma política social diferente, o PS voltará, sem apelo nem agravo, ao purgatório dos últimos dez anos. E merecidamente.

DO MEU DIÁRIO

Foto desta tarde

Lisboa 3 de Maio de l994 -Vai realizar-se ainda este mês, o congresso «Portugal que Futuro?». Far-se-ão, seguramente, comunicações brilhantes. Far-se-á, certamente, o levantamento das nossas carências e potencialidades. Far-se-á, em suma, um diagnóstico do actual estado de coisas, etc. Seguir-se-ão as exegeses mais ou menos profundas; mais ou menos clarividentes; mais ou menos obtusas. Ficar-se-á, contudo, com a sensação que desta é que é.
        Estes congressos ocorrem, de quando em vez, com a intenção de repensar Portugal. Um professor catedrático abordará a problemática do ensino; um jovem escritor falará de literatura e da arte em geral; outro académico falará das perspectivas económicas até ao final do século; um constitucionalista dissertará acerca da necessidade da adequação da Constituição da República aos desafios futuros; os políticos de serviço exaltarão as virtudes do sistema, ainda que realcem a fragilidade do sistema democrático, etc.
        Os panegiristas mais inflamados, não tardará muito, cairão no mais profundo desencanto, por incapacidade própria de compreender o país real: uns suicidar-se-ão; os restantes promoverão uns jantarinhos de confraternização, para carpir as suas desilusões. É verdade que o tempo em História não é circular, mas por vezes colhe-se a amarga sensação de que também não é rectilíneo. Ao evento poder-se-ia chamar “Conferências Democráticas do CCB”, mesmo que Eduardo Lourenço não rime com Antero de Quental ou Saramago com Eça.
        Oliveira Martins continua actual: Portugal, enquanto país com iniciativa histórica, morreu em 1580. Regressámos ao velho rectângulo peninsular, mas sem os varões de 1383-1385; sem os nautas que sulcaram os mares do planeta; sem os Albuquerque e os Castro que construíram o formidável império do Oriente. Porque somos rudes e nos remetemos a «ua apagada e vil tristeza».

DO MEU DIÁRIO


Lisboa, 28 de Abril de 1994 - Portugal é, nos tempos que passam, um país de proxenetas. Não admira, assim, que volte a perder a oportunidade que lhe foi oferecida com a integração na UE. Nos nossos campos, não florescem mais oliveiras, pessegueiros e laranjeiras do que anteriormente. Os nossos campos foram povoados de jeeps e outras máquinas de quatro rodas, que nunca hão-de produzir um alqueire de trigo, cevada ou aveia. Onde outrora ondulavam searas verdejantes, há agora coutadas quase desertas, para os tecnocratas se libertarem, ao fim-de-semana, do «stress» dos seus quotidianos indiscutivelmente movimentados, mas quantas vezes inúteis.
        A indústria definha, apesar dos muitos milhões de contos que lhe têm sido insuflados para se modernizar. Acontece, todavia, que a desejada modernização passou simplesmente pela aquisição de equipamento informático e não pelo equipamento indispensável ao sector produtivo. Por conseguinte, aumentou o desemprego e diminuiu a produção e a competitividade. Neste sector, se não estou em erro, as grandes maquias foram gastas na aquisição de BMW(s) e na construção de palacetes.
        É este o retrato do meu país. Indiscutivelmente um retrato pessimista, mas verdadeiro. Porque Portugal é um país de bácoros, que sugam vorazmente a teta da UE.

domingo, 17 de março de 2013

DO MEU DIÁRIO

Caldas da Rainha
Santa Iria de Azóia, 17 de Março de 2013 – António José Seguro terá afirmado este fim-de-semana, a crer nas notícias, que o PS rompeu com o Governo e/ou com os partidos que suportam o “troikano” executivo. Eu creio que há aqui um excesso de expressão, porque nem o PS nem Seguro terão rompido com o governo. E muito menos com os partidos que suportam essa coisa a que se chama Governo, mas que merecia mais expressiva e violenta designação.
     Seguro chega atrasado. Chega atrasado, porque os seus interesses pessoais são postos à frente dos interesses dos portugueses e de Portugal. Depois desta avaliação dos incompetentes “troikanos” é evidente que os lusos representantes dos organismos que aqueles representam estão a prazo. E Seguro sabe disso e acha que é o momento para fazer a demarcação, a fim de se poder experimentar o seu receituário de meias doses.
Caldas da Rainha
 Em Portugal, nada bateu certo e não basta dizer que somos diferentes da Grécia. Até no excesso de zelo que Passos Coelho, Gaspar e Portas, tiveram no cumprimento de um receituário desajustado. Por que carga de água a receita que levou a Grécia ao desastre havia de ser virtuosa em Portugal?
     Seguro lembrou agora que Passos Coelho não disse ao que vinha quando disputou as últimas eleições legislativas. Esse era o discurso que deveria ter feito logo que as medidas do governo começaram a ser tomadas. Seguro quis fazer o luto e matar Sócrates. Para proveito próprio e do seu partido, mas não para proveito dos portugueses e de Portugal.
Caldas da Rainha
     Seguro podia ter ajudado os portugueses e Portugal de uma forma menos calculista. Podia ter contribuído, associando-se à luta do povo, para evitar estes vãos, desmesurados e dolorosos sacrifícios.
          
       
NOTA: Será que estes estabelecimentos, fechados no fim do verão, já reabriram?  

sábado, 16 de março de 2013

ARIADNE -I


Ariadne chorou,
Chorou muito sentida,
Quando Teseu,
Sem uma palavra,
A deixou.


Podia ter chorado
O novelo do fio
Ou a espada
Que lhe deu. Não.
Ariadne chorou,
Traída e magoada,
O modo
Como Teseu zarpou:
         Sem uma carícia,
          Sem um gesto,
          Sem uma palavra.



ARIADNE -II


Quisesses tu
- Ó doce filha de Minos! -
Dar-me
Por amor
Um novelo de fio
Igual ao de Teseu...

Desvendados os mistérios
Do meu labirinto,
Num veleiro de sonho,
Sem hesitação,
Levar-te-ia
Onde nos levasse
O coração.

im FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx., 2005
A POESIA

  
Há quem pense
Que é muito fácil
Este velho ofício
De versejar.


Há até quem pense
Que Bocage,
Quando desafiado,
Respondia
Imediatamente
Com decassílabos
Sonorosos
E exactos.


Sabem os que fazem
Que a espontaneidade
É técnica,
Trabalho,
Tenacidade.
 

in FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx., 2005

DO MEU DIÁRIO


Santa Iria de Azóia, 16 de Março de 2013 – Governado pela direita mais retrógrada e antipatriótica, Portugal deixou de ser um país a sério. É uma coutada do FMI, BCE e CE, onde, os que fazem de conta que são ministros governam com o objectivo de destruir, pedra a pedra, o edifício social construído após o 25 de Abril.
     Se esta direita fosse patriótica, ou seja, amiga dos portugueses e de Portugal, não deixaria que três pavões que aí aparecem amiúde se permitissem vir a nossa casa humilhar-nos e ofender-nos. Se esta direita fosse patriótica, ou seja, amiga dos portugueses e de Portugal, mediante os sucessivos fracassos, sairia de cena e restituiria a voz ao povo soberano.
     Tenho asco pelos representantes do FMI, do BCE e da CE, que, tendo prescrito uma receita para ultrapassar uma crise, não têm a humildade de reconhecer a falência e perigosidade da receita prescrita; porém, tenho muito mais asco ainda pelos que fazem de ministros, que, rejeitados pelo povo, perseveram em continuar políticas de terrorismo social, agarrados ao pote do poder, onde se vão lambuzando como podem.
     Pobre país, o meu país!

sexta-feira, 15 de março de 2013

VELOZES CORREM OS ANOS 

Vão as horas, vão os dias,
No seu constante fluir;
Mesmo as poucas alegrias
Me visitam a fugir.

Sob a ponte passa a água
A caminho do vasto mar.
Só em mim, teimosa, a mágoa
Não tem pressa de passar.

Velozes correm os anos;
Pra onde, não sei ao certo;
Só ficam os desenganos
E as marcas do desconcerto.

Que consertar não consigo
Esta vida sem sentido.
O fado é severo comigo;
Mas, não me dou por vencido!
4 QUADRAS


Tenho uma quadra singela
Pra te dizer ao ouvido.
Quando ta disser não digas
Que sou rapaz atrevido.

De hoje não pode passar,
Se não passa a validade.
Quero-te dizer, amor,
Que te amo de verdade!

Este amor é tão sincero,
Tão sincero e delicado,
Que já não posso, meu bem,
Tê-lo no peito guardado!

A noitinha à janela,
Vai ser grande a emoção,
Quando de forma singela,
Te falar ao coração.