quarta-feira, 29 de maio de 2013

APONTAMENTOS

    

A forma e o modo com os “ayatollahs” tratam os funcionários públicos, em Portugal, há muito que ultrapassou as raias do razoável. Este fundamentalismo, velhaco e desonesto, que nada discute com seriedade, tem apenas como objectivo reduzir, custe o que custar, os encargos que o Estado foi contraindo ao longo doa anos, desde o 25 de Abril até aos dias que correm.
     O Estado deixou de respeitar os seus compromissos. Nenhum cidadão se tornou funcionário, porque um dia decidiu entrar numa repartição, num hospital, numa escola, num quartel, etc. e começar a trabalhar, decidindo o seu salário e o seu horário, ou melhor, estabelecendo unilateralmente o seu contrato de trabalho.
     O estado deletério a que a direita conduziu o Estado, tornando-o uma pessoa sem palavra e sem princípios, não merece o respeito dos cidadãos. Este Estado merece e vai ser derrubado!
*
     Os meteorologistas franceses anunciam Mau tempo no Canal. É o tempo a estar em consonância com o resto da realidade. Vamos ter mais chuva. E provavelmente mais ventania. O que não quer dizer que venhamos a ter mais frio. É chuva e vento que a coisa está a pedir.
*
     Um indivíduo de apelido Moedas entrou-me pela casa dentro, este princípio de tarde, para falar de justiça e equidade. Que significarão para Moedas justiça e equidade?
     Há palavras que deveriam ser interditas a certas pessoas. Por uma questão de justiça, equidade, transparência, sanidade, etc.

terça-feira, 28 de maio de 2013

APONTAMENTOS

    

     Et voilà, messieurs et Mesdames, le grand moment est arrivé: “le moment de l’investissement”!
     Não sei bem em quê, porque os investidores privadas não vão em cantigas. Também não creio que possam ser retomados os socráticos projectos do TGV e do Aeroporto do Poceirão, adiados para as calendas gregas, ou seja, para o dia de São Nunca à tarde.
     De resto, de quando em vez, o ministro Álvaro - e agora também o ministro Gaspar – faz estes anúncios aos tolos – antes cartas aos coríntios como S. Paulo -, mas depois volta tudo à estaca zero, até serem anunciados os novos números da desgraça: do aumento do desemprego, da queda do consumo e do PIB, do aumento da dívida e do consumo de calmantes, ansiolíticos e coisas afins, etc.
*
    Ainda não pingam, mas já sabem a sardinha, ou seja, já têm aquele paladarzinho que as torna inconfundíveis. São assim como o queijo-chulé, que marcou indelevelmente a minha infância.
     Meu pai trabalhava na construção civil e minha mãe, para ajudar o orçamento familiar, trabalhava no campo, executando os mais diversos e penosos trabalhos. E eu, que tinha por trabalho brincar e ir à escola, ficava todo o dia entregue a mim mesmo, com pão e queijo e laranjas. Ou outra fruta da época.
     As sardinhas eram comidas com parcimónia. Apesar de tudo, era o peixe fresco que aparecia todos os dias na Mata. O sardinheiro era dos Escalos de Baixo e era coxo. Por vezes também trazia excelentes chicharros e até peixe-espada. Era comida de gente pobre, curiosamente.
*
     Vai começar brevemente uma nova acção de controlo fiscal, em forma e em força. Ainda que com nome velho. É a operação “locomotiva”, segundo ouvi dizer. A outra teve algum impacto; porém, cheguei a saber se o IRS e o IRC da dita operação foi liquidado e cobrado pela administração fiscal. Certamente.
     Tudo o que se faça para haver uma maior redistribuição e equidade fiscal, virá por bem. Estranho, todavia, que a ideia só ocorra quando tudo está de pantanas. Opções troikanas-gasparianas, que estas coisas só se fazem depois da troika estar devidamente notificada.

domingo, 26 de maio de 2013

APONTAMENTOS

    
A fraude e a evasão fiscal é uma praga que existe em Portugal e à qual nunca se deu um combate eficaz. É que esse combate colidiria com interesses instalados e com certas bases sociais de apoio.
     Fala-se muito das fintas ao fisco por parte dos pequenos; porém, das fintas dos graúdos nem sequer chegamos a ter conhecimento. Sabemos que a operação chamada “Furacão” ainda dura. Alguns milhões de euros terão entrado, por via dessa tal operação, nos cofres do Estado. Porém, é tudo demasiado opaco e sigiloso.
     Era bom, no entanto, que todos pudessem saber o nome dos bois. Alguns, certamente, são dos que aprovam todas as austeridades e pouco se ralam com o empobrecimento do país.

*
     O Benfica, candidato a tudo até ao fim, acabou por não ganhar nada. “Yo no creo en las brujas, pero que las hay, las hay”.

    annus horribillis
*
     Mais importante do que as vitórias do Benfica é a situação social e económico-financeira de Portugal. Mais importante do que as vitórias do Benfica é eu saber se no próximo mês haverá pão na mesa da minha casa e na mesa da casa dos meus concidadãos que partilham das mesmas aspirações e dúvidas.
     A bola é redonda e dentro de meses voltará a rolar com as vicissitudes, entusiasmos e decepções de sempre. No futebol, sim, há o eterno retorno.
*
     O Benfica e o país são o reverso e o anverso da mesma moeda.

APONTAMENTOS

    

 O combate à fraude e à evasão fiscal parece ser agora uma prioridade do governo. Já houve, no passado, múltiplas campanhas, que, de um modo geral, foram muito improdutivas e opacas.
     Estes combates fazem-se com meios humanos e materiais. Meios humanos há; porém, parece que não há meios materiais. Se assim for, o combate será apenas um simulacro de combate.
*
     Eu também não gosto de Cavaco Silva. E penaliza-me que o senhor seja presidente de Portugal; porém, jamais me passaria pela cabeça chamar-lhe palhaço. É que o homem é antítese do palhaço: sem graça, zangado e excessivamente egocêntrico.
     Gosto de pessoas que amam e praticam a generosidade, ou seja, pessoas que sabem relegar o seu “euzinho” para segundo plano. E que sejam divertidas e tenham dúvidas e se enganem. E o homem de Boliqueime não cabe neste quadro simplicíssimo.
 *
     Hoje não pude estar na manifestação da CGTP, que foi impedida de perturbar a sesta ao inquilino do Palácio de Belém. Esta gente do PPD-PSD tem um medo incrível de manifestações populares. E, no momento presente, até da democracia mais formal.
     Os manifestantes que participaram na iniciativa da CGTP souberam estar à altura das circunstâncias. E foram muito criativos como sempre. E souberam solidarizar-se com o jornalista Miguel Sousa Tavares. E reclamar o fim deste governo-praga, onde o irresponsável político Gaspar, afilhado de Schauble, parece mandar sozinho no país.
     A democracia só lhes interessa se estiverem na eminência de chegar ao poder. Uma vez empoleirados mandam as eleições às malvas, mesmo que o país esteja a caminhar para o precipício.
    

quinta-feira, 23 de maio de 2013

APONTAMENTOS

 


 Batista-Bastos, que foi um grande repórter e continua a ser um excelente romancista e cronista, tem retratado de forma impiedosa o inquilino do palácio de Belém. Num português sem mácula e com a contundência arguta e fina de quem domina magistralmente a língua portuguesa.
     Devo a Batista-Bastos o prazer da grande prosa e o bater certeiro no presidente que uma escassa maioria de portugueses elegeu para ser o Presidente de Portugal.
*
     Rosalina é um nome bonito para jardineira. Mas só raramente há coincidências felizes. Só as alcunhas, de um modo geral, coincidem com as funções e com as profissões: Manel Ferrador, Chico Estofador, Tony das Bicicletas, etc.
     Ah!, já me esquecia do meu antigo talhante que é Cachucho de apelido e vende chicha.
*
     Creio que o verdadeiro ministro das finanças de Portugal é um alemão de apelido Schäuble, o que não deixa de ser bizarro num país que já deu “novos mundos ao mundo”.
     Quem é que ainda me garante que as pátrias são eternas?   

APONTAMENTOS


Wikipédia   
Georges Moustaki, autor e intérprete de muitas cancões, deixou-nos hoje. Tinha setenta e quatro anos, mas fico com a sensação que vinha lá do fundo do tempo a cantar e a encantar.
     Temas como Ma Liberté, Le Métèque e Le Facteur, fizeram deste grego de expressão francesa um autor-intérprete universal. O mundo, de facto, hoje ficou mais pobre.
*
     Este governo de direita, sem alma nem piedade, merece ser derrubado. Este governo, sem alma nem piedade, é um governo terrorista. Cada voto de cumprimento deste governo é uma mentira futura.
*
     E Rosalino, claro, é um bonito nome para jardineiro. Mas coincidências só com as alcunhas. Capador é alcunha de grande expressividade. Chico Capador é casamento perfeito.

APONTAMENTOS


     Batista-Bastos, que foi um grande repórter e continua a ser um excelente romancista e cronista, tem retratado de forma impiedosa o inquilino do palácio de Belém. Num português sem mácula e com a contundência arguta e fina de quem domina magistralmente a língua portuguesa.
     Devo a Batista-Bastos o prazer da grande prosa e o bater certeiro no presidente que uma escassa maioria de portugueses elegeu para ser o Presidente de Portugal.
*
     Rosalina é um nome bonito para jardineira. Mas só raramente há coincidências felizes. Só as alcunhas, de um modo geral, coincidem com as funções e com as profissões: Manel Ferrador, Chico Estofador, Tony das Bicicletas, etc.
     Ah!, já me esquecia do meu antigo talhante que é Cachucho de apelido e vende chicha.
*
     Creio que o verdadeiro ministro das finanças de Portugal é um alemão de apelido Schäuble, o que não deixa de ser bizarro num país que já deu “novos mundos ao mundo”.
     Quem é que ainda me garante que as pátrias são eternas?   

terça-feira, 21 de maio de 2013

A CRIANÇA SEM INFÂNCIA


I

A criança sem infância
Aconteceu
O braço cresceu tenso
E jamais vergou.


II

Cresceu de punho erguido
Com uma rosa vermelha
Entre os dedos.

A criança traída
Por seu sorriso
Sem segredos.


III

É em pequenino
Que se aprende
A amar a sério,
Porque o amor,
Aprendido assim,
Não tem mistério.





AINDA A POESIA



Às vezes,
A poesia
Parece
Dádiva
Dos deuses,Passar dias
E mais dias

Porque acontece
-Até meses!... –
Sem escrever
Um verso.



quarta-feira, 15 de maio de 2013

SEMPRE A PALESTINA

  
     (Para Tawfiq Zaayad, poeta palestino,
já desaparecido, autor do livro de Poemas
Amã em Setembro)

Beija por mim
A Terra Santa da Palestina,
Ó viajante!
E se fores a Nazareth,
Vai deixar flores
No túmulo de Tawfiq Zaayad.

E segreda-lhe
(os poetas
Ao contrário dos deuses,
Mesmo mortos,
Nunca deixam de ouvir)
Que os países
Podem ser riscados dos mapas,
Mas as nações são eternas.

Diz-lhe, viajante,
Baixinho,
Que não há medida
Para a nossa esperança!




segunda-feira, 13 de maio de 2013

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 13 de Maio de 2013 - Um país em crise não pode ser o sítio onde se fazem as mais abjectas experiências económico-sociais; um pais em crise não pode ser dirigido por uns rapazes que se estão nas tintas para o país e para quem nele vive; um país em crise não pode viver permanentemente sob a chantagem dos capatazes de serviço, que anunciam a conta-gotas as malfeitorias que querem impor ao povo.
     Este governo não governa com e para os portugueses; este governo governa em obediência cega aos credores e aos amigos dos credores, nomeadamente o coxo alemão, também conhecido por Wolfgang Schauble; este governo governa contra Portugal, porque põe portugueses contra portugueses; este governo não aceita a lei fundamental da República e acorda com estrangeiros aquilo que esconde dos portugueses; este governo governa obstinada e furiosamente contra os pensionistas da função pública, tudo fazendo para obedecer às ordens de terceiros e a relatores de relatórios duvidosos; etc.
      Um governo deste teor ir pela borda fora, porque já deixa um rol inaudito de desgraças passadas, presentes e futuras.

domingo, 12 de maio de 2013

O VERÃO
No verão,
Quando o sol
Incendiava os dias,
Era à sombra
Da figueira branca,
Junto ao poço,
Que a nossa família
Se acolhia.

Pacientemente,
Meu avô
Descascava então
Figos de piteira
Que eu comia.

Saciada a sede
E distribuído o pão,
Muito feliz,
Minha avó dizia:
- Abençoado seja o verão!...

DO MEU DIÁRIO



Sesimbra, 11 de Maio de 2013 – Hoje, em Santa Iria de Azóia, Luís Mariano foi apresentado como candidato da CDU à presidência do Agrupamento das Freguesias de Santa Iria, S. João da Talha e Bobadela. Creio que é uma boa escolha e espero ardentemente que o Luís venha a ser eleito.
     Conheço o Luís Mariano há várias décadas. Sem ser um amigo chegado é um amigo e um homem da minha geração. Conhece a fundo o trabalho das autarquias, porque integrou sucessivos executivos da Junta de Freguesia de Santa Iria e é, de alguns meses a esta parte, o Presidente. O nosso Agrupamento de Freguesias, com um território de grandes dimensões, onde habitam dezenas de milhar de pessoas, teria muito a ganhar com a eleição deste candidato da CDU. É que Luís Mariano é um fazedor. É um dos responsáveis pelo crescimento harmonioso e pelo desenvolvimento humano da freguesia de Santa Iria de Azóia.
     Se Luís Mariano vier a ser eleito, será, na Câmara Municipal de Loures, uma voz que se erguerá a favor das populações. Nomeadamente das que habitam os bairros de génese ilegal, vulgo bairros clandestinos, que tantos são na área das três ex-freguesias. Mas saberá também juntar a sua voz à dos restantes habitantes do Agrupamento de Freguesias, para defender conquistas civilizacionais que hoje se encontram tão ameaçadas.

sábado, 11 de maio de 2013

DO MEU DIÁRIO


Santa Iria de Azóia, 11 de Maio de 2013 – Gaspar e Passos Coelho – e uma parte do PPD-PSD e do CDS-PP – elegeram os funcionários públicos, e os trabalhadores em geral, como os responsáveis por esta crise. Por conseguinte, há que fazê-los pagar com língua de palmo e meio tudo o que conquistaram com o 25 de Abril.
      Esta direita sem escrúpulos e sem princípios, anti-patriótica e retrógrada, não olha a meios para atingir os seus fins, mesmo que tenha que recorrer às mais descabeladas ilegalidades. O modo como o chefe do governo se refere ao Tribunal Constitucional, e como age na sequência das suas decisões, é a prova evidente do mais profundo desrespeito pelo Estado de Direito.
     O chamado “estado de emergência” não explica tudo. O comportamento de Passos Coelho e do ministro das finanças prova à saciedade que esta gente, para além de impreparada e pouco conformada com a legalidade constitucional, tinha uma agenda ideológica para levar à prática, destruindo o SNS, a Escola Pública e outras conquistas civilizacionais.
     O propósito de sacar nas reformas e pensões – sempre os do costume a pagar! – demonstra também a coragem desta gente. Não atacam as PPP, não atacam a fraude e a evasão fiscal, não atacam os interesses dos banqueiros e dos especuladores bolsistas, não atacam as pensões daqueles “sorvedores” de dinheiro que passaram poucos anos pelo BdP e pela CGD, não atacam os gestores que geriram em proveito próprio e da sua seita ideológica. Não!, atacam aqueles que descontaram dezenas e dezenas de anos e que o chefe do governo tem o desplante de dizer que têm pensões ou reformas para as quais não descontaram.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

A FLOR DA ESTEVA


Branca, preta
E amarela
É a flor
Da esteva.


Tricolor,
Ai, é tão bela
A flor
Da esteva!


Traz em si
A noite
O alvorecer
E o pleno dia,

A vistosa
E bela
Flor
Da esteva…

DO MEU DIÁRIO


Santa Iria de Azóia, 9 de Maio de 2013 – Quando estes cavalheiros acabarem o ajustamento – e parece que nada nem ninguém os demoverá dos seus propósitos mais íntimos – Portugal será um país de tal modo empobrecido, que os agora cidadãos serão escravos dos detentores dos meios de produção de riqueza.
     O ajustamento passa pelo empobrecimento generalizado, nomeadamente dos funcionários públicos, que são apontados como os verdadeiros responsáveis pelo estado a que a pátria chegou.
      Há que fazer reduções na despesa do Estado, há que fazer o máximo de reduções nas despesas do Estado, que propiciem futuras baixas de impostos, baixas significativas de impostos, que hão-de beneficiar os próceres do costume: os donos da banca, os donos da indústria dos estudos e dos pareceres, as chamadas parcerias público privadas, os donos dos grandes grupos da distribuição, os donos de alguma indústria. E a gandulagem que os apoia ao mais alto nível.
     As consequências negativas para os restantes trabalhadores, falo dos  privados, claro, que pensam que os males do país são os gastos com trabalhadores e pensionistas, serão incomensuráveis. Os trabalhadores, públicos e privados, são o alvo destes exterminadores de direitos. Desta gente que ignora valores civilizacionais e conceitos como solidariedade. Os vampiros voltaram!

quarta-feira, 8 de maio de 2013



10

                                                                                                                           Sou no que pode o eco, não o lamento.
                                                                                                                           Escrita, a ti me entrego, e me possuis
                                                                                                                           no vão das horas, nas máscaras do tempo


                                                                                                                                         António Carlos Secchin, in Terra

Nenhuma viagem é mais terrível
do que aquela que é feita ao mais fundo de nós,
a esse implacável reino onde se acumulam,
e ardem, pedaços do que nunca seremos.
Nenhuma viagem é mais tormentosa,
mais negra, mais cheia de enganos e monstros
do que aquela com que enfeitamos a ruína
do último dia. Perante o irremediável -
as mãos abertas, uma canção estilhaçada
numa boca anónima, o desespero
a refulgir no terraço onde eu há muito
deixei de procurar. É assim toda a viagem:
nem errada nem certa; paisagem a insistir,
fixa, iluminada, de onde minha imagem deserta.

Mateus, Víctor Oliveira, Gente dois reinos, Labirinto
Deste livro apresentado na livraria Pó dos Livros, em
Lisboa, no último sábado, falarei brevemente.

terça-feira, 7 de maio de 2013

ROUXINOL
Net

Eu tenho inveja de ti
 – Ó sublime rouxinol! -,
Que voas
E cantas
E longe
E alto levas
O teu canto!

Enquanto eu
 – Simples aspirante a cantor –,
Sou incapaz
De dar asas
E levar longe
E alto
O meu humilde canto.

Eu, humano
E sensível,
Tudo faço
Ao rés-da-terra.

SE EU FOSSE COMO CATULO

Se eu fosse como Catulo,
Poeta de inspiração,
Em teu corpo, amor, havia
De gravar mil versos, mil!,
De grata recordação.

Com os dedos e os lábios,
lascivos e enlouquecidos,
nele havia de escrever
a mais pura poesia.

Disse bem, amor, havia!





SE EU FOSSE COMO CAMÕES


Se eu fosse como Camões,
Havia de te fazer,
Amor, versos geniais,
Muitas trovas de encantar!

Pintar-te-ia morena
E de outras cores sadias.
Blusa vermelha decerto
E calças azuis de ganga.

Assim irias à fonte
- Discreta como se vê -,
Leda e bela ao meu encontro.

E haveria de deixar
Teu rosto ruborizado
Com mil beijos, mil ou mais.

                                       8-03-05

domingo, 5 de maio de 2013

PALAVRAS PERDIDAS

 

Há quanto tempo, mãe, não te falo de amor
Com aquelas palavras de encantar
Com que as crianças falam do amor?!


Há dias corei de vergonha,
Corei de vergonha quando li,
Num livro de cartas de Saint-Exupéry,
As palavras mágicas que ele  escreveu a sua mãe
E que eu nunca te disse a ti.


Deixei que entre nós se interpusesse
Um pudico silêncio ancestral
E disse-te apenas coisas imediatas e triviais.


Eu esqueci, mãe, aquelas palavras claras e pueris
Que tanto alegravam o teu coração.


Eu coro de vergonha, mãe!

in FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx., 2005

JUNHO
 

Para a minha mãe, com amor 

Nas manhãs de Junho,
Quando o sol tudo doirava,
A nossa casa era também
A sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

Guardo memória, mãe!,
Da nossa rua térrea
E vejo-te jovem
Algodão dobando
À sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

Nas manhãs de Junho,
Quando o trigo amadurecia
E eu brincava, brincava
À sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

Fazia-te mil perguntas
- Mil ou muitas mais –,
E tu respondias sem enfado
À sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

E eu era feliz
E tu eras feliz, mãe!
À sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

Do outro lado da rua
À sombra da oliveira.


in FRAGMENTÁRIA MENTE, Sta. Iria, 2009