segunda-feira, 12 de agosto de 2013

PARIS


Chamam-lhe a cidade luz,


Mas que luz tem a cidade?


Que fascínio seduz


Quase meia humanidade?


 


Oh, grande e bela Paris!


Oh, generosa cidade!


Não, não se engana quem diz,


Que deixas sempre saudade!


 


Um café no Luxembourg,


Descer o Saint Michel,


Os faquires no Baubourg,


Namorar na Torre Eiffel.


 


Confesso que fui feliz,


No tempo que lá vivi.


Oh, doce e gentil Paris,


Como é bom gostar de ti!


 


 


 

TI ZÉ JÚLIO
 

     Era um homem baixo e cheio, que recordo a varrer a rua à frente da sua casa, a rua de Santa Margarida, que começa junto à igreja matriz e termina no Largo do Prata. Usava uma vassoura de giestas quase da sua altura. Não era homem de tabernas. Apreciava mais sentar-se no seu poial a descansar e a ver quem passava. Era um homem bom.

     Dele se conta uma história engraçada, cuja veracidade jamais poderei apurar. E que aqui deixo em pinceladas rápidas, que rápidas quero estas minhas narrativas sobre pessoas da Mata. Esta história terá ocorrido há mais de cinquenta anos, na segunda-feira de Pascoela, que era também o dia principal da festa de S. Pedro. O padre percorria a aldeia, entrava nas casas, dava o Cristo crucificado a beijar e desejava as boas-festas aos moradores e seus paroquianos.

     Um dos organizadores deste cerimonial era o professor Falcão, que, naquele ano, decidiu com o padre, ou sozinho que é a mesma coisa, que o padre com o crucifixo só entrava nas casas dos paroquianos que tinham a côngrua paga. Quando se chegou à porta de Ti Zé Júlio, o professor Falcão sentenciou: “O Zé Júlio, não pagaste a côngrua e, por isso, o nosso senhor não entra na tua casa”.

     Ti Zé Júlio, despachado, foi buscar dinheiro e perguntou: ”Quanto é que eu devo, senhor professor?”. O professor consultou a relação e lá disse quanto era. Ti Zé Júlio pagou e quando se ia afastar, o professor disse-lhe:” Agora, o nosso Senhor já pode entrar na tua casa, Zé!”, ao que Ti Zé Júlio respondeu com prontidão: ”Não, senhor professor. O nosso Senhor não entra na minha casa, porque eu não quero. O nosso Senhor não é de vinganças”.

     E foi assim que Ti Zé Júlio, que usava o chapéu sempre inclinado para trás, deu ao professor, ao abade e restante séquito, uma grande lição. Ah, como eu gostava de ter visto a cara do professor Falcão!

O TEMPO  1


Veloz,
O tempo tece o linho
Para o último lenço.


Breve seja
Também

O último adeus.

 


TEMPO 2
I

É o tempo
- O inexorável tempo -,

Que atenua a mágoa
E mostra

Quão profundas

Eram as raízes.

 
II

Um Verão vai
E outro vem.

E neste vaivém,
Decorre

A minha vida.

 Esta vida que vai,
Vai e não vem.

 

III

Lentas,
As nuvens vêm

E vão.

 Umas deixam (m)água
E outras não.

 
Ah, só o Verão,

Esplendoroso,

Alegra
O meu coração.

 
O Outono,

Decididamente,

Não!

 

 

quarta-feira, 7 de agosto de 2013


TI JOÃO PARRANÇO
 

     Ti João Parranço, tio de meu pai por afinidade, nascera na Bemposta, concelho de Penamacor, mas veio casar à Mata com uma filha de Francisco Lucas, meu bisavô. Pedreiro, era considerado artista na sua profissão. Sim, que ser pedreiro, ferrador, carpinteiro, padeiro, rebocador, canteiro, capador, e não me levem a mal um ocioso etc., era ter uma arte, era ser artista.

     Ti João Parranço, João Martins Félix era o seu nome civil e de baptismo, foi até à velhice um verdadeiro andarilho. Vinha e ia como lhe dava na real gana e trabalhava quando lhe apetecia. Pagou com o corpo a ousadia de ser avesso aos sedentarismos e àquele conjunto de regras comummente aceites. Passou muitas temporadas no sanatório das Penhas da Saúde, onde, quando piorava, tratava a tuberculose. Longe da família e a família longe dele, que o tratamento era recíproco.

     Recordo-me de Ti João Parranço, que me tratava por sobrinho, me oferecer rebuçados, mas sem nunca pegar com as suas mãos no que me oferecia. Dizia para o lojista, Joaquim Amaro: “Dê cinco tostões de rebuçados ao meu sobrinho”. E eu aceitava, contente, os rebuçados que o Ti João me oferecia.

     Bebia muito vinho e fumava desalmadamente; ou, pelo menos bebeu e fumou até muito tarde. Tinha uma voz pausada e rouca, que raramente dava mostras de exaltação. "O tempo é o melhor mestre dos homens, mas os homens não ouvem o mestre”, sentenciava. Mas tinha outros ditos – outros aforismos, se preferirem -, igualmente judiciosos, que a rapaziada nova ouvia mas não levava a sério.

     Ti João Parranço ajudou meu pai na construção da nossa primeira casa. E ambos construíram a casa de uma das minhas tias. Certo dia, Sentados em pedras, à sombra de uma oliveira cordovil que havia na tapada do professor, ali almoçámos todos, os dois casais e este escriba, que teria então quatro ou cinco anos. Ti Rita pegou num respigo de uva e deu-me. Minha mãe, atenta, perguntou: “Como se diz, Manel?” e o Ti João, rapidamente e antes de eu agradecer: “Que te dê mais!”.

     Às vezes, ainda o oiço: “Ó sobrinho, o tempo é o mestre dos homens, mas os homens não ouvem o mestre”. Como era sábia e sábia e pertinente continua a máxima que retive de Ti João!

terça-feira, 6 de agosto de 2013


TI MANEL BEATO

 


     O homem que hoje aqui recordo terá sido dos mais talentosos que a Mata pariu. E não tem parido, sabeis bem, grandes obras de arte. Pois Ti Manuel Beato fez questão de ser diferente e consegui sê-lo até muito tarde. Tivesse nascido num bom berço e a república inteira havia de se orgulhar deste nosso conterrâneo.

     Tendo idade para ser meu avô, conheci-o desde a mais tenra idade. Desde sempre, para ser mais rigoroso. Muito falador – mas nunca falajador -, ainda hoje lhe reconheceria o timbre da voz. Tinha estatura mediana e cabelo branco. Os óculos, num certo sentido, conferiam-lhe um ar distinto, num tempo em que ninguém tinha doenças dos olhos.

     Fez um pouco de tudo na vida: negociante de volfrâmio, taberneiro, lojista, enfermeiro, agricultor, barbeiro e até odontologista. Agricultor havia de acabar, ou seja, em estreita comunhão com a grande mãe. Perseverante, Ti Manel Beato montou a sua bicicleta até cerca dos noventa e subia a Monheca indiferente aos anos. Foi o exemplo mais acabado de que um homem é aquilo que a sua cabeça lhe permite ser.

     Era um homem teimoso e não admitia que lhe fizessem o ninho atrás da orelha. E apesar da sua estatura mediana – hoje os padrões estão muito alterados, diz-se que à conta da farinha cerelac e de outros comestíveis modernos -, Ti Manel Beato não se furtava a uma discussão e de enfrentar fisicamente quem, prepotentemente, lhe quisesse dificultar a vida. Foi o caso de um administrador da Fábrica do Tomate do Ladoeiro, que lhe quis recusar a entrada de tomate da sua produção, por um qualquer fútil motivo, mas que acabou por aceitar a entrega perante a fúria de Ti Manel Beato. Já com setenta bem contados.

     O que Ti Manel Beato não conseguiu foi, na sua função de odontologista, extrair um dente a minha mãe. Sete vezes tentou e sete vezes falhou a extracção. Era a ferro frio - nada de anestesias – e conhecendo como conheço minha mãe, sei que a culpa não foi toda do pretenso dentista. Sete vezes tentou e sete vezes falhou.

     A sério e a mangar conversámos muito. Houve, desde sempre uma grande empatia entre nós, apesar dos cinquenta anos que nos separavam na grande tábua do tempo.    

segunda-feira, 5 de agosto de 2013


FALAR DE AMOR

1

Não esperemos mais,
Amor,
Que os nossos lábios
E os nossos dedos
Já nos deram
Os necessários sinais.

Façamos tudo de novo.
Mais uma vez
E outra ainda,
Com a serenidade dos sábios.

Não esperemos mais.

 

2

Talvez um beijo,
Amor,
E outro
E outro ainda,
Possam serenar
Tanto desejo.

Talvez.

 

 

TI JOÃO BALHAU (ASADINHO)



     Terá sido este homem bom, com algum jeito para contar histórias, que me fez as primeiras botas. Recordo-me daquele corredor onde trabalhava, dias inteiros, sentado numa cadeira de palha, baixa, e do calçado para consertar arrumado do lado esquerdo do dito corredor e também à sua mão esquerda. Era o seu posto de trabalho da primavera ao outono, porque quando estava mais frio ou chovia, trabalhava no forro da sua casa. Sim, uma espécie de sótão, onde a braseira aconchegava os pés.

     Era vizinho de meu avô Manuel Barata, Ti Careca por alcunha, e também por este facto, passei por ali muitas horas da minha infância, ouvindo as histórias, mais ou menos apimentadas, da aldeia. Contava que meu avô, muito dado a crendices, fora consultar uma soldadora que havia em Castelo Branco e que esta lhe prometera a cura da perna coxa, que coxa havia de ficar até ao fim dos seus dias. Porém, movido pela fé e pela vontade da cura, meu avô terá dito ao mestre sapateiro: “Ó João, é desta que vou ficar curado e vou fazer sozinho a festa do Mártir S. Sebastião!”. E o bom do meu avô, crente até à raiz dos cabelos, dava passos como se nunca tivesse coxeado. Sol de pouca dura. Meu avô continuou a coxear e ao Mártir outros fizeram a festa.

     “Faça-lhe umas botas bonitas, mas com borracha, que sempre duram mais”, disse a minha mãe. “Põe aqui o pé”, dizia o mestre sapateiro, que, com um lápis, fazia a planta do meu pé numa folha de papel pardo. “Mas faça-lhas folgadinhas, que o rapaz está a crescer”, insistia minha mãe. “Está descansada, que vai ter botas por muito tempo”, asseverava Ti João Balhau. E as botas foram feitas e duraram muito tempo, porque quando o pé deixou de caber, cortou-se a biqueira à bota e os dedos podiam crescer à vontade.

     Estava ali a poucos metros da taberna do Prata, que depois havia de ser café e com vários proprietários ao longo dos anos, onde o nosso homem, roliço, cabelos ondulados e com a sua marreca profissional, se deslocava célere, a fim de matar a sede. Por vezes, nem tirava o avental que tão precioso era no exercício da profissão. E depressa regressava para retomar a obra, que os clientes eram muitos e não havia mãos a medir.