terça-feira, 6 de novembro de 2012

DO MEU DIÁRIO

Santa Iria de Azóia, 6 de Novembro de 2012 – Dir-se-ia que a coisa se está a pôr a jeito: quem, doravante, chamar nomes feios ao senhor primeiro-ministro, corre o risco de ser inquirido pelo ministério público. Consumando-se a ameaça, ou o critério do ministério público é muito vasto, ou vai ficar entupido num abrir e fechar de olhos. E a democracia leva mais um rombo.
Ponsul
    
Há um ditado em português que diz: “ quem não quiser ser lobo, não lhe vista a pele”. Se o indivíduo que ocupa o cargo de primeiro-ministro é desastrado, não se pode dizer dele que seja certinho; se diz uma coisa na oposição e faz outra quando chega ao governo, não lhe podemos chamar amante da verdade; se nomeia um governo com poucos ministros a fim de conter as despesas, mas nomeia depois comissários para não sei quantas comissões, não o poderemos apontar como um modelo de transparência e seriedade política; etc.
    
     O indivíduo Passos Coelho interessa-me tanto como a água que corre no rio Ponsul. Porém, o indivíduo que chefia o governo do meu país e me obriga, a mim e aos meus concidadãos mais desprotegidos, aos mais inúteis sacrifícios, não me pode merecer qualquer tipo de consideração. No dia em que adoptou as primeiras medidas que contrariavam o programa com que se apresentou ao acto eleitoral que lhe deu a maioria que lhe permitiu formar governo, deixou de ter legitimidade democrática. E esta, por enquanto, é conferida aos mandantes pelo povo soberano. Em eleições!

sábado, 3 de novembro de 2012

UM DIA

Um dia
Tropecei num livro
E fiquei agarrado.

Ao primeiro
Outros livros
Se seguiram.

Sentei-me então
E um a um
Fui-os folheando.

Lendo sempre
Com a avidez
Dos amantes.

Deixei correr
O tempo,
Inexoravelmente.

E agora
Só quero ficar
Sentado.

Até quando?
Até quando
É a pertinente
Pergunta.
NAMBUANGONGO

Ansiosos,
como loucos,
esperávamos a DO.

E quem não recebia carta
ou aerograma
ficava mais triste
e só.

Era a puta da guerra
- já sem guerra -,
no degredo
de Nambuangongo.


Lá,
onde até o céu
parecia mais alto
e inclemente.

Lá,
onde o napalm
devastara a paisagem
e matara gente.



quinta-feira, 1 de novembro de 2012

CARLOS PAREDES

 (Para Carlos Paredes)

Tinha tanta fantasia
Sobre a guitarra curvado.
Às vezes até parecia
De seus dons maravilhado.

E tocava com energia
- Com tanto talento e garra -,
Que às vezes até parecia
Fazer amor com a guitarra.

Em Sesimbra, junto ao mar,
Recordo com nostalgia
Aquele par de encantar,
Aqueles sons de magia.

ANDA O POVO DEPRIMIDO

Anda o povo deprimido
Por causa da recessão.
Descobre no comprimido
Um meio de salvação.

Ou num copo de bom tinto
Abundante em Portugal.
Mesmo assim, inda pressinto,
Que não resolve este mal.

Isto, amigos, só lá vai
Combatendo a roubalheira.
E quem a pátria trai
De forma infame e rasteira.



Paris, 1 de Novembro de 2012 – O dia acordou cinzento e frio, facto que não é propriamente uma novidade em Paris, no Outono. No entanto, não choveu tanto como a meteorologia prometia e o sol, medroso, ainda foi aparecendo. Intermitentemente, portanto. O sol, a quem o nosso Cesário chamou “grande colorista”, permitiu-me observar as belas cores outonais que apresenta o “Jardin du Luxembourg”, onde foi construído, por vontade de Maria de Médicis, mãe do futuro rei Luís XII, um belíssimo palácio de gosto florentino, onde actualmente tem sede o senado francês.
     Para trás já ficaram o “Jardin aux Fleurs”, a “Notre Dame”, “Saint Michel” e a área circundante, onde agora há um comércio de matriz oriental. Sinal dos tempos. Sinal dos tempos será também o irreconhecível “Jardin aux Fleurs”, onde há lojas fechadas. A póspera e generosa França tem hoje as suas dificuldades e a paranóia da austeridade é praga que se propaga ou multiplica. Se vivermos mais alguns anos, talvez possamos ver a póspera, arrogante e pouco solidária Alemanha em papos de aranha.
     Em “Saint Michel” há também uma restauração relativamente nova, de sanduíches e afins, onde se nota a ausência dos franceses. Nomeadamente daquele jeito pícaro do “garçon”, sempre com uma graçola na ponta da língua. “Saint Germain” permanece praticamente imutável. O inconfundível bom gosto dos cafés e restaurantes, que também é bem visível em “Montparnasse”.
     E no interim, os barcos navegam no Sena, carregados de turistas rendidos ao fascínio da Cidade Luz.

DO MEU DIÁRIO

Lisboa, 31 de Outubro de 2012 – Saída de Lisboa com uma hora de atraso. Nos tempos que correm é inadmissível. Vou para Paris, onde todo o tempo é  pouco, e sinto-me roubado. De resto, é uma sensação cada vez mais recorrente. Sim, sinto-me  roubado ou espoliado. Tanto faz. Sou cidadão de um país onde os trabalhadores, os doentes e os desempregados ajudam os patrões e os banqueiros.
     Em Paris, não faço visitas. Revisito locais e monumentos que já conheço de cor e salteado. Paris é a minha droga, ou melhor dizendo, uma das minhas drogas e não há nada a fazer. Talvez passe pelo Centro do Mundo árabe ou vá ao Père Lachaise. Jim Morrisson e o Muro dos federados. Talvez o João queira ir. Talvez.
     O que ninguém me vai tirar, havendo saúde, é uma passagem por Saint-Michel, uma passagem pelo Louvre e pelo Baubourg. Pelo Jardim du Luxembourg também. E Montparnasse, seguramente. É que há lá umas galerias Lafayette e é fatal como o destino. É a felicidade de viajar acompanhado.
     O OE está aprovado e o assalto será consumado. E o pior é que ninguém se vai queixar à polícia e aos tribunais. E valeria a pena ir? Portugal precisa é de uma vassourada e de ar freso.