sábado, 8 de fevereiro de 2014

PRESSÁGIOS


         (Para Carlos de Oliveira)



Galo vagabundo,
não cantes à noitinha,
que o teu canto pressagia
o fim do mundo.

Galo vagabundo,
de crista bem erguida
pela madrugada fora,
anuncia-nos com o teu canto
a fatalidade da vida
hora a hora.

Canta galo vagabundo!

Cantai galos de todo o mundo!

NÃO VOLTAREMOS A SER



Não voltaremos a ser
O que noutro tempo fomos.
O fogo arde agora brando,
No meu peito extenuado.

Ah, sinto tanto cansaço!
Um cansaço imenso, amor,
De tudo e até de mim!

É o crepúsculo a chegar,

É o crepúsculo a chegar.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

LISBOA



A nobre Lisboa tem
O vasto Tejo a seus pés
‘ma porta aberta ao vaivém
Rumoroso das marés.

Este Tejo que o Poeta
Morada das musas quis,
Foi a companhia certa
Deste pequeno país.

Cais de partida e chegada,
Quantos segredos ouviu?
Nunca quis revelar nada
Das muitas coisas que viu.

Companheiro e confidente,
Nas horas boas e más,
Esteve sempre presente,
Discreto, calmo, sagaz.


Manuel Barata, FRAGMENTÁRIA MENTE, Ed. Alecrim, 2009.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

DA UTILIDADE DO LUTO VISÍVEL



     Quando o meu avô paterno partiu – dele herdei o nome -, usei um fumo negro para cumprir a nossa tradição. Durante seis meses, não dancei e nem sequer saltei às fogueiras pelo S. João.

     Quando o meu avô materno expirou, usei gravata preta na hora de o entregarmos à terra. E confesso que não senti, nem mais nem menos, a sua definitiva partida.

     Quando a minha avó Maria chegou ao fim, não me lembro de ter posto uma gravata preta, porque coincidiu com o dia do casamento da minha afilhada. Porém, assevero-vos que chorei muito o fim de minha avó Maria.

     Faz hoje cinco, cansado de resistir, meu pai deixou-nos. A gravata preta tornou-se inevitável durante horas, porque me competia receber quem dele se despedia. Quando o deixámos na terra encharcada, fui para a nossa casa e tirei a gravata, ainda que por dentro fosse – e continuo a sê-lo – um enorme pranto.


ACERCA DOS LIVROS



De e com livros tem sido feita a minha vida:
Bons, maus, e assim-assim.
Neles, aprendi metade do pouco que sei;
Sem eles, não sei dizer o que de mim seria!

Outro homem, decerto, seria…

2
Com Fonseca, Manuel como eu,
No culto das musas me iniciei:
Ainda hoje vejo passar a tuna do Zé Jacinto
E me delicio com as alvas rolas,
Que Maria Campaniça escondia sob a blusa.

Por mil anos que um homem viva
Há metáforas que nunca morrem nem esquecem.

3
A prosa chegou com a colecção seis balas.
Só depois chegou Ferreira de Castro
E o seu casto português.
Fiz-me amigo de Manuel da Bouça e de Ricardo;
E, sobretudo, de Marreta e Horácio.

(E é chegado o momento de dizer,
Que se dane o espanhol que não quer
Referências culturais na poesia.
Que se dane pois o espanhol,
Cujo nome já esqueci).

4
Santareno
Veio ainda antes de Vicente!
Primeiro, o Édipo de Alfama;
Só depois, chegou o autor das barcas
e o pai de Antígona.

Franzino, António Martinho do Rosáro
Teve artes para ganhar a dianteira.

Em boa hora.

5
De e com livros tem sido feita a minha vida.


in FRAGMENTÁRIA MENTE, Ed. Alecrim, Sta Iria, 2009


 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O MEU TEMPO É OUTRO





I
E logo hoje,
Que eu precisava tanto de um dia azul,
Alegre e límpido,
(oh, se precisava!)
A Natureza me submerge de cinzento,
Tristeza e bruma.

Que mal te terei feito,
Pergunto-te,
Para me tratares assim,
Ó grande Mãe?!

Porque contrarias,
Tão pertinazmente
Os meus desejos simples
De azul, alegria e limpidez?

Porquê?

Eu aprecio imenso
Eu aprecio imenso
As fotografias geladas
E brumosas
Dos blogues
Da Papu
E do Daniel Abrunheiro.

Porém,
Trago em mim a ansiedade
Das amendoeiras floridas
No fim de Fevereiro.

III
Definitivamente,
O meu tempo é outro:
Abril
Com suas águas mil
 (ó grande António Machado!);
Maio
Com todas as flores;
Junho
Com os primeiros figos
E cerejas maduras.

Definitivamente,
O meu tempo é outro.




GUEVARA


I
Ernesto
Tinha uma moto
E gostava
De viajar.

Ernesto sabia
De firme saber
Que a geografia
Se aprende
Em cada lugar.

Um dia,
Deixou mulher e filhos
E partiu.

II
A melancolia
Era só exterior.

Ernesto
Tinha
Dentro de si
Um indomável
Corcel.

E um coração
Apaixonado
Como Carlos Gardel.

III
Cansado
Da pátria placidez
E de sonhos
A transbordar,
partiu
Para não mais voltar.

E o ignoto médico dentista
- Asmático por sinal –
Transformou-se no símbolo
Da revolução universal.