quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

DO MEU DIÁRIO



 


Delacroix

 
Portugal é hoje um país de répteis. Não admira, assim, que a traição espreite a cada esquina. Os portugueses sempre foram mesquinhos e interesseiros. E nada dói tanto como a ausência de grandeza. Portugal começou a agonizar, com efeito, ainda na primeira metade do séc. XVI. Caminha para a dissolução final, inelutavelmente. E sobretudo, porque nunca mais soube encontrar alternativas credíveis e atempadas.

     Hoje, agarra-se e chupa a teta da mãe Europa com quantas forças tem. O pior virá, quando a teta, sugada até ao tutano, deixar de ser o almejado D. Sebastião.

        Curiosamente, a religião nos fez grandes e pequenos. Com o mito de cruzada dominámos metade do mundo. A Inquisição castrou-nos para sempre.

 


QUADRAS DATADAS (PEDRO DE MASSAMÁ) - II




 
O Pedro de Massamá

Nunca será meu amigo.

Ele é do que pior há;

É joio a estragar o trigo.

 

Eu só falo do mandante,

Que o homem não me interessa.

É fracote e inconstante

E pra destruir tem pressa.

 
Este Pedro que não atina,

E nos quer empobrecer,

Que vá de visita à China

E fique por lá a viver.

 

Pedro Coelho está a mais,

Neste nosso Portugal.

Saia e leve outros pardais

Leve a praga, leve o mal.

 

QUADRAS DATADAS (GASPAR)


 


O bom ministro Gaspar

Sabe contar muito bem.

Sabe ordenados cortar

E subir os preços também.

 

O sonsinho do Gaspar

Jamais expressa emoções.

Só fala em cortar, cortar,

Para dar aos galifões.

 

Este Gaspar dos cifrões

Não sabe literatura.

O outro sabia, o Simões,

E não era casca dura.

 

Gaspar na televisão

Augura sempre desgraça;

Com cara de sacristão

Vai-nos à fazenda e à massa.

 

Este homem tem um fito:

Depenar o nosso povo.

Dele fizeram um mito,

Mas não trouxe nada novo.

 

A mezinha de Gaspar

Pra tratar de Portugal

Só nos trouxe mal-estar

E um desânimo brutal.

 

Que o homem vá prò Japão

Ou prà Guiana francesa.

Em Portugal é que não

Porque deixa a malta tesa.

 

 
 

 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

UM RETRATO À LA MINUTA


 Lisboa, 28 de Abril de 1994 - Portugal é, nos tempos que passam, um país de proxenetas. Não admira, assim, que volte a perder a oportunidade que lhe foi oferecida com a integração na UE. Nos nossos campos, não florescem mais oliveiras, pessegueiros e laranjeiras do que anteriormente. Os nossos campos foram povoados de jeeps e outras máquinas de quatro rodas, que nunca hão-de produzir um alqueire de trigo, cevada ou aveia. Onde outrora ondulavam searas verdejantes, há agora coutadas quase desertas, para os tecnocratas se libertarem, ao fim-de-semana, do «stress» dos seus quotidianos indiscutivelmente movimentados, mas quantas vezes inúteis.

        A indústria definha, apesar dos muitos milhões de contos que lhe têm sido insuflados para se modernizar. Acontece, todavia, que a desejada modernização passou simplesmente pela aquisição de equipamento informático e não pelo equipamento indispensável ao sector produtivo. Por conseguinte, aumentou o desemprego e diminuiu a produção e a competitividade. Neste sector, se não estou em erro, as grandes maquias foram gastas na aquisição de BMW e na construção de palacetes.

        É este o retrato do meu país. Indiscutivelmente um retrato pessimista, mas verdadeiro. Porque Portugal é um país de bácoros, que sugam vorazmente a teta da UE.

ESTE ORÇAMENTO CANINO


Este orçamento canino,

Que destrói este país,

É obra de gente com tino,

Que sabe o que faz e diz.

 

Como é dura a nossa vida

- Isto assim nem é viver!-

Esta gentinha atrevida

Só nos quer empobrecer.

 


Estou farto desta tralha

Que depaupera o país.

Era tão bom que a maralha

Lhes apertasse o nariz.

 

A coisa vai dar prò torto,

Que certo não pode dar.

O povo parece morto,

Mas há-de ressuscitar.

 

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

VAMOS SER REFUNDADOS


 
 
Vamos ser bem refundados

- Que a obra vai ser perfeita! –

Portugal requer cuidados

E refundar é a receita.

 

Correr com esta gentinha,

Que desgoverna o país,

É tarefa vossa e minha

E sou eu quem vo-lo diz.

 

Ou se trava esta loucura

Ou vai tudo prò maneta.

Esta gente é muito dura

E quer-nos ver na valeta.

JOÃO BARRIGANA

 


     Homem de excessos, acertou cedo as contas com o Criador; como, de resto, já tinha acontecido com os irmãos. Terá chegado aos setenta, pouca idade para os tempos que vão correndo.

     Apesar da diferença de idades, tutuávamo-nos e conversámos muito. Cada qual com a sua pedra no bolso e vá lá saber-se porquê. Talvez a política, mas o que é um facto é que nunca discuti política com o João Faustino, apesar de ter sido durante vários anos presidente da junta de freguesia da Mata, que agora é dos Escalos de Baixo e Mata, devido à engenharia relvas.

     Gaguejava muito, mas ninguém ficava sem resposta. Dizia-se que ficou gago devido a um coiçe de burro, quando ainda era criança. Aprendeu uma profissão, emigrou, construiu um edifício polivalente, que servia de café, salão de jogos, salão para eventos e casa de habitação. O café do “Barrigana”, a dois passos do Largo do Rossio, onde outrora se esperava pacientemente um cântaro de água, nos dias longos do verão, dava à Mata uma nova centralidade.

     Nunca cheguei a saber se foi eleito como independente ou numa lista do PSD ou do PS. O que posso dizer é que a junta de freguesia era o João Barrigana, ou João Faustino, que para o caso pouco interessa, que tinha coadjuvantes mas que a personalidade do presidente eclipsava. O que nem era mau nem bom, porque o importante era fazer obras e creio que o João Barrigana mandou fazer algumas e parece que chateava nas reuniões da assembleia municipal.

     Uma vez perguntei a meu pai: “em quem é que vai votar, pai?”, que me respondeu muito prontamente: “vou votar no João Barrigana, que quando fui operado fez o favor de me ir dar sangue”. E contra factos não há argumentos. A resposta de meu pai desarmou-me e qualquer discussão não faria mais sentido. E creio que terá votado sempre no João, parente afastado por afinidade, que lhe dera sangue, numa das curvas apertadas da vida.

     Comigo a coisa piava mais fino. Quando o encontrava sentado ao balcão do café, agarrado à sua bejeca, tartamudeava sempre algumas palavras, quase sempre imperceptíveis, mas que eram invariavelmente uma pequena mas inofensiva provocação. Estava-lhe na massa do sangue; porem, nunca lhe quis mal por isso. Que a terra lhe seja leve!