TI
BARATA (CARECA)
O meu avô Manuel Barata, que a Mata
inteira conhecia por Ti Careca, era um homem pequeno de altura e magro. Usava
chapéu preto de feltro que lhe tapava a calva, que esteve na origem da alcunha
e até de uma cantiga burlesca que em tempos se cantou na aldeia. Todos os meus
tios herdaram a alcunha. Sorte diferente teve o meu pai, que herdou a alcunha
Doutor de um tio de meu avô.
Ti Careca, Manuel Barata de seu nome
completo, insistia em usar o apelido Martins para se distinguir de outro Manuel
Barata, bom carpinteiro, que era seu vizinho. Foi ganhão e trabalhou no campo,
enquanto a saúde lho permitiu. Depois, passava o tempo atrás de uma cabra e
duas ovelhas e tratava da horta na Tapada da Bemposta. Como coxeava muito,
gritava à cabra e às ovelhas, que até parecia que queriam fazer dele
gato-sapato. Ajudei-o muito na rega da horta e ele descascava figos de piteira
para mim.
O meu avô era um homem muito dado a
crendices; porém, raramente ponha os pés na igreja. Tudo o que lhe acontecia na
vida, nomeadamente nos anos finais, era obra de espíritos e entidades afins.
Até a tosse do tabaco e a pieira eram atribuídas às almas dos nossos antepassados.
De madrugada, nos frios invernos da Mata,
meu avô vinha tossir para o balcão da sua casa. E eu ouvia-o a tossir e a dizer
a minha avó: “Maria, estás a ouvi-los?”. Não consultava o médico, mas
acreditava em bruxas e soldadoras. Quantas vezes foi ao Pego, ali para as
bandas de Abrantes, à procura de quem lhe esconjurasse os espíritos!
Tenho boas recordações deste homem frugal,
que apreciava mais um cigarro do que uma fatia de pão. Não tocava quase em
vinho, mas consumia aguardente produzida por minha avó. É que da economia
doméstica era a minha avó que tratava, porque o meu avô se demitira, quando
deixou de trabalhar, de dar ordens a quem quer que fosse. Comia pouco e mal,
levava o seu pequeno rebanho a pastar, regava a horta e fumava. E todos o
tratavam com carinho.
Sabia ler, mas não sabia escrever. Apesar
de tudo, não deixava de ser extraordinário, quando o analfabetismo atingia a
quase totalidade da aldeia. Nas vias-sacras, quando se faziam as paragens
obrigatórias, era o meu avô que lia as orações. Porém, como se dava mal com as
esdrúxulas, em vez de pérola lia “peróla”.
Apesar de ser meu avô e padrinho de
baptismo, nunca me terá dado um beijo. E só eu sei como gostava do meu avô!
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