quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

OS CAMINHOS



Tantos e tão longos
foram já
os caminhos percorridos!

Às vezes,
pela tristeza dominado;
outras,
vivendo a mais pura alegria.

Todavia,
Olho para o passado
e tudo me parece,
ter acontecido
com excessiva brevidade.

(e nem sempre a salvo
de muitas  pedradas
e algumas pisadelas).

De nada me queixo
-afora a bravura do destino-,
porque dos homens,
muito cedo,
claramente apreendi
quão imutável
é a sua natureza.



quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

DISTRAÍDO



Distraído,
a olhar o movimento
dos pássaros,
deixei o tempo
fluir,
inexoravelmente.

Quando te procurei
era tarde,
já demasiado tarde,
e não te encontrei.

E nada se repete:
hoje, seis;

Amanhã, sete!

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

O TEJO



Quase arroio,
em Almourol,
onde parece querer
ouvir as moiras
dos contos de fadas;
deslumbra-se
com as planícies
e vai alargando,
preguiçosamente,
sem pressas
de chegar.



Perto da foz
é já um mar.



segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

LONGE DO BRUAÁ



Longe do bruaá e do movimento da grande cidade,
passeio nas ruas do meu bairro,
onde, de todas vejo o Tejo
-essa porta larga de tantos sonhos e desesperanças-,
ora azul, ora prateado.
E também passo pelo olival,
Onde limpos, os donos levam seus cães a defecar.
                              
Nessas horas de convívio feliz comigo e com a Natureza,
Esquecido do tempo ido
e com o futuro pouco preocupado,
penso quão livre tenho sido
e quão fecunda podia ter sido a minha vida.

Só eu sei quão grato para mim seria
Deixar um verso para o futuro recitar;
mas sei também que outros pardais mais ágeis
se perfilam  para esses ousados voos.

Cada dia que passa mais me apraz a solidão
e deixo o tempo passar, placidamente,
que é assim, placidamente, que o tempo deve passar.


Até um dia. Até um dia... 

domingo, 11 de fevereiro de 2018

A MINHA BIBLIOTECA



Na minha biblioteca
há mortos e alguns vivos.
Vivem comigo em silêncio
e quase fraternalmente.

Aqui é tudo boa gente:
Camões, Bocage, Garrett,
Pessoa, Belo, Osório,
Pina, Salvado, Vicente.

Teresa, Isabel, Horta,
Florbela, Rita, Natália,
Yvette, Llansol, Fiama,
Marta, Graça, Linspector.

Pachec(os), Oliveira, Grade.
Cardoso, Antunes, Pires,
Saramago,  Redol, Rosa,
Martins, Ferreira(s), Andrade.

Desculpas, desculpas mil
aos bons poetas d’ Espanha,
tantos tantos do Brasil
e outros que não referi.

Neste meu pequeno mundo,
uma imensidão de mundos! 
E com estes mestres viajo,  
sem do convento sair.





sábado, 10 de fevereiro de 2018

AS MINHAS PORTAS DE SANTO ANTÃO


10.02.2018 – Sábado. Voltei ao Baixinho. Dir-se-ia que o Baixinho está para mim como o Gambrinus estava para o cineasta Fernando Lopes.



     É que no Baixinho, mesmo quando almoço sozinho, estou sempre acompanhado. Conhecemo-nos todos e temos uma relação de cordialidade. Direi mesmo de uma certa cumplicidade.


     Hoje, “marchou” um delicioso “bife” de atum – os portugueses fazem bifes de tudo – quiçá até de testa de carneiro -, acompanhado com brócolos e um tinto do Douro, este servido na justa medida.


     A Avenida de Santa Iria é, definitivamente, as minhas Portas de Santo Antão.

VELHA CASA REVISITADA

09.02.2018 – Há quase quatro anos que não entrava na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. E fui a esta casa que também foi minha, há muitos anos, porque tinha um encontro aprazado com o doutorando Rui Sousa, que foi colega da minha filha. Sim eu tive uma filha, a minha filha.



     E tive a agradável surpresa de reencontrar a poeta Ana Paula Tavares, que conheci exactamente no mesmo dia em que vi pessoalmente a minha, hoje, grande amiga, Isabel Mendes Ferreira. Comemorava-se o dia da poesia e o começo da Primavera. E numa mesa, com uma assistência quase nula, estavam Victor Oliveira Mateus, ao centro, ladeado por Ana Paula Tavares e Vânia Chaves.



     Pediram-me para tirar fotografias e tirei. E com sua licença, uma a Isabel Mendes Ferreira. Não sei se a Isabel se recorda, mas foi assim. E nem uma palavra trocámos.




     Gostei de rever Ana Paula Tavares, uma poeta de Angola, que ensina em Portugal. E como eu sou a personificação da distração, a poeta mandou-me sentar e momentos depois, levantou-se e disse: “Desculpe não o ter cumprimentado. O senhor é o pai da Filipa…” E só por este facto, já valeu a pena ter ido, quase quatro anos depois, à Faculdade de Letras.