sábado, 21 de setembro de 2013


A BIBLIOTECA DE ALEXANDRIA

 


     Às vezes, dou por mim a pensar nas cinzas da biblioteca de Alexandria e pergunto-me o que num só fogo perdeu a humanidade.

      Quantos séculos terá o mundo regredido por obra de um fogo? Esta é a pergunta clássica e inteligente, que todos os sábios fizeram.

      Há outra pergunta, talvez impertinente e talvez cretina, que ninguém ousou fazer: onde estaríamos hoje, se hoje ainda houvesse, sem o fogo de Alexandria?

 
TÃO LONGOS ERAM OS DIAS


 
 

Nas noites de verão,

Ficavam no poial.

Tão breve era a noite

Prò corpo descansar.

 

Era de sol a sol;

Era da convenção.

Tão ardente era o astro

Por conta do patrão.

 

Duro o queijo e o pão

Comidos com vagar.

Tão rápida era a sesta;

Nem dava pra sonhar.

 

Quando o dia acabava,

Depois do pôr-do-sol

Galhofeiros cantavam

A caminho de casa.

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

PESSOALÍSSIMO
 
 
Às vezes, sinto cansaço

desta correria vã.

Onde está meu corpo de aço,

que nunca dizia não?

 

O tempo é o TGV,

um ruído... já passou!

Quem te viu e quem te vê,

como o tempo te devastou.

 

AUTOBIOGRAFIA BREVE

 


Cheguei numa manhã de Junho, segunda-feira, e já o sol ia alto. Chovia. Esperavam-me, ansiosas, minha mãe e minha avó paterna.

     Cheguei, pois, em dia de sapateiro, como se dizia na minha aldeia.

     Cheguei gato-esfolado, contaram-me mais tarde; todavia, com muita vontade de me fazer à vida.

     Ao contrário de Daniel Abrunheiro, que daqui quero saudar fraternalmente, eu não cheguei atrasado. Cheguei a tempo, muito a tempo, para da vida ir colhendo múltiplas alegrias e tristezas, que ela é temperada com umas e outras.

     Cheguei a tempo de conhecer um país pequenino, que os próceres do regime, dirigido pelo beirão de Santa Comba, estendiam da parte mais ocidental da Europa até Timor. Era um Portugal miserável, triste e sem humor, do qual herdei esta perseverante e amarga ironia.

     Cheguei a tempo de conhecer o exílio e de saber quão amargo é viver longe da pátria, mesmo quando o afastamento resulta de uma decisão livre ou ditado pelo amor à liberdade; ou ainda, quando pela pátria nos é imposto. Oh, como eu compreende o imortal Ovídio!

     Cheguei a tempo de ajudar à festa e da festa me embriagar e da ressaca, que ainda vai teimosamente perdurando, apesar do vinho bebido não ter sido muito e nem sempre ser da melhor qualidade. Se preciso fosse repetir tudo de novo, tudo de novo repetiria (Por favor, não me macem com os pleonasmos)!

     E por cá vou andando, com a pele às costas, nada reclamando do amor e dos amigos. Da pátria sim, reclamo, porque sempre a quis mais livre e mais fraterna!

 

 

 

TI MANEL DA CRUZ
    

     É rara a vez que vou à Mata e não me cruzo com Ti Manel da Cruz, que, se ainda os não tem, deve estar muito próximo dos noventa anos. Habituei-me a vê-lo passar à nossa porta, ora a pé, ora montado na sua carroça. Tem sempre mais uma palavra que os simples boa tarde ou bom dia; e, por isso mesmo, tenho por ele estima e simpatia.
     “Ó João, hoje tens cá o teu Manel?”. Era uma constatação e uma pergunta retórica, porque eu estava ali à mão de semear. Mas dirigia-se primeiro a meu pai, um dos seus companheiros de sueca, no café de Manuel Domingos Barata, o Japona. E só depois, me dirigia directamente a palavra: ”Tás bom Manel, pois sim?”
     Ainda agora, já tão avançado na idade, continua direito que nem um fuso, em cabelo ou de chapéu na cabeça, sempre muito cordial e digno. O que já não tem, porque o tempo tudo traz e tudo leva, é força para pegar na bandeira e, com muito garbo, fazer toda a procissão. Foi voluntário para levar a bandeira, em todas as festas da Mata, desde que não houvesse promessa a cumprir ou que outro homem manifestasse o desejo de levar aquele adorno de difícil manuseamento, nos dias de festa com vento. Hei-de descobrir uma fotografia para ilustrar o que aqui fica dito.
     Nas cartas, gostava de ser parceiro de meu pai, mas também jogava contra ele. Nunca tive notícia de qualquer discussão de monta e preservaram a amizade até ao fim. Lembro-me de Ti Manel da Cruz passar e dizer: “Ó João, está cá o teu Manel, hoje não jogas?”. Meu pai apressava-se a sossegá-lo: “O meu Manel vai-se já embora. Eu já lá vou ter”. E ia, muitas vezes, ainda antes de eu partir. O gozo de puxar pelas orelhas às cartas falava mais alto, o que é compreensível, porque era o único entretém destes homens simples.
     Ti Manel da Cruz, a quem o povo alcunhou de Farinheira, ainda está para dar e durar. Se a saúde não lhe pregar nenhuma partida, é bem capaz de chegar aos cem. Oxalá que sim!

quinta-feira, 19 de setembro de 2013



NÃO SOU DESTA PATRIA



     Não, não sou desta Pátria. Agora que o Inverno se aproxima, quero um barco para voltar a Ítaca.

   Há vinte anos ausente, em alterosos mares perdido, embriagado de sol e de neblina, do amor de Calipso farto, quero ir para Ítaca na bolina e não é para ver os bordados de Penélope.
     Levai-me, ó fiéis marinheiros, levai-me para Ítaca, agora que o Inverno se aproxima veloz e inexorável! Levai-me para Ítaca, que Argos me espera e quero ver de novo campos de oliveiras e suaves colinas.

     Levai-me, ó fortes marinheiros, levai-me para Ítaca, que eu não sou desta Pátria!...

 

 

 



    

 

quarta-feira, 18 de setembro de 2013


BENDITAS SEJAM AS NOSSA OLIVEIRAS
 

     Viram-te nascer e conhecem de cor os teus segredos. Foram a tua companhia, silenciosa e segura, durante centenas de anos.

     Deram-te sombra, nem sempre boa, é certo, nos tórridos dias do verão; a luz possível, antes do advento da eletricidade; o calor nos invernos, às vezes, tão longos e rigorosos; o tempero para a panela pobre, que tornava o feijão e a couve menos ásperos; o dinheiro para muitos dos restantes e indispensáveis bens.

     E como a generosidade foi recíproca, também é justo que não olvidemos o muito e aturado trabalho, e até servidão, que foram exigindo a sucessivas gerações.

     De qualquer modo, moldaram-te o carácter. Com elas aprendeste a mansidão e a austeridade. Por isso mesmo, nunca foste dada a sobressaltos e a paixões. Em toda a minha vida, apenas ouvi falar de um crime passional, perpetrado por um homem, a quem o amor de uma mulher não quis servir. Foi muito antes de eu ter nascido e já passei há muito pelos cinquenta.

     Benditas sejam para sempre as nossas oliveiras!