quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

É O CREPÚSCULO A CHEGAR

Não voltaremos a ser
O que noutro tempo fomos.
O fogo arde agora brando,
No meu peito extenuado.

Ah, sinto tanto cansaço!
Um cansaço imenso, amor,
De tudo e até de mim!

É o crepúsculo a chegar,
É o crepúsculo a chegar.





segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

CIRCULAÇÃO


É para vós que eu canto, infímas coisas
transbordando de frutos e perfume,
que haveis permanecido como rumo
à directriz da vida,
                                      meu repouso
isento d'ambições e d'avarezas
feito d'instantes a prover alívios
com palavras de sol e gestos d'ouro:
-pequenas coisas quase sem medida
que foram pão e água sobre a mesa.

Nada vos consumiu. Por isso canto
a grandeza da vossa companhia

nos glóbulos vermelhos do meu sangue
que do passado vogam ao porvir. 

Salvado, António, Águas do Sono, Ulmeiro, Lx., 1ª ed., 2003      

sábado, 9 de fevereiro de 2013

ISTO ESTÁ A PEDIR CHUVA


“O que está acontecer, Manuel?”, perguntas-me, dear Feicebuque, de forma sorrateira e ronha. Não sei que ideia fazes de mim – e garanto-te que pouco me interessa a ideia que possas fazer de mim - ,mas deves pensar que eu sou assim uma espécie de oráculo de Delfos.
     É claro que sabia que os bandeirinhas estavam reunidos para discutir mais cortes nos vencimentos, reformas e pensões, numa guerra sem quartel contra os portugueses que foram ou são empregados do Estado. E também contra os outros, é claro, mas que vivem na ilusão de que os do Estado têm muitas regalias.
 Mas aproveitei este sol de Fevereiro para ir apanhar espargos. Eu sei que tu não sabes, dear Feicebuque, mas aqui perto do sítio onde moro, há um olival onde há espargos e eu sou um fã incondicional dos espargos com ovos e uns bocadinhos de linguiça, que lhe conferem um sabor muito agradável e alentejano. O Alentejo, infelizmente, onde nasceram Borges e Moedas, é a região mais deprimida de Portugal e até talvez da EU, mas claro que para ti, a situação do Alentejo e dos portugueses não tem qualquer interesse.
     Os bandeirinhas reuniram e decidiram que vão sacar aos portugueses aquela bagatela de 4 000 000 000 de euros. Medidas de terrorismo político e social, na palavra forte do meu amigo Jerónimo Carvalho de Sousa. E quem veio anunciar as malfeitorias? Um tal Moedas que, sem pestanejar, fala destas medidas infames como se de trocos se tratasse.
      Ísto está a pedir chuva.
     Boa noite.
A OLIVEIRA MILENAR

A oliveira milenar,
Que vive em Santa Iria,
Se nos pudesse falar,
Que histórias contaria?

Esta robusta oliveira,
Plantada ou aqui nascida,
É testemunha primeira
De três mil anos de vida.

De Homero contemporânea
Merece ser bem tratada.
Que viva, pois, espontânea,
E não lhe façam mais nada.

Procedam só à limpeza
E não lhe provoquem danos.
É força da Natureza
P’ra resistir mais mil  anos.

VENEZA

Veneza tem mil canais,
Gôndolas e gondoleiros.
Tem muitas noivas aos ais
E rixas de marinheiros.

Andar nas ruas a pé
(palmilhar toda a cidade)
Vê-se o que Veneza é,
Na sua complexidade.

Becos, ruas e ruelas
E água por toda a parte.
Muitas raparigas belas,
Valiosas obras de arte.

Máscaras de mil modelos,
Que os Carnavais são famosos.
Chocolates é só qu’rê-los,
Venham de lá os gulosos.

Recuerdos em murano,
- O vidro da região –,
Passam de ano para ano,
De estação em estação.

 A verdadeira beleza,
Desta cidade invulgar,
(e existe com certeza),
Só a vislumbro do mar.

Quando o astro a alumia
- Vista do grande Canal -,
Ela é cor, ela é magia
É um mundo sem igual!

São Marcos é devoção,
Arquitectura e lazer,
As coisas da rel’gião,
Os palácios pra ver.

Na esplanada do Lavena,
Um café saborear.
Se a tarde ‘stiver amena,
Quem poderá olvidar?

Veneza tem mil canais,
E uma secreta beleza…
Durará mil anos mais?
Há-de durar com certeza!

in FRAGMENTÁRIA MENTE, 2009

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

ROUBEI UM VERSO

Há dias,
Despudoradamente,
Roubei um verso
Ao poeta Albertí.

Coisa sem importância
Dirão os (des)entendidos
Que pululam
Por aí.

Roubar, meu amor,
Só na loja das flores,
Uma rosa
Para ti!


domingo, 3 de fevereiro de 2013

DA UTILIDADE DO LUTO VISÍVEL
    
Quando o meu avô paterno partiu – dele herdei o nome -, usei um fumo negro para cumprir a nossa tradição. Durante seis meses, não dancei e nem sequer saltei às fogueiras pelo S. João.
     Quando o meu avô materno expirou, usei gravata preta na hora de o entregarmos à terra. E confesso que não senti, nem mais nem menos, a sua definitiva partida.
     Quando a minha avó Maria chegou ao fim, não me lembro de ter posto uma gravata preta, porque coincidiu com o dia do casamento da minha afilhada. Porém, assevero-vos que chorei muito o fim de minha avó Maria.
     Faz hoje quatro anos, cansado de resistir, meu pai deixou-nos. A gravata preta tornou-se inevitável durante horas, porque me competia receber quem dele se despedia. Quando o deixámos na terra encharcada, fui para a nossa casa e tirei a gravata, ainda que por dentro fosse – e continuo a sê-lo – um enorme pranto.