sábado, 17 de março de 2018

DESCOBRI AGORA



Descobri agora
com a chegado do Outono
que, também eu,
como Alberto de Lacerda,
tenho um caso amoroso
com a vida.

Com altos e baixos
como todos os amores
-acrescento eu-
com dias sombrios
e dias radiosos.

Amo a vida,
sim, amo a vida,
ora amarga,
ora doce;
ora triste
ora divertida.

E tento aproveitá-la,
antes da inevitável partida!

quarta-feira, 14 de março de 2018

AUTOBIOGRAFIA BREVE



   
  

     Cheguei numa manhã de Junho, segunda-feira, e já o sol ia alto. Chovia. Esperavam-me, ansiosas, minha mãe e minha avó paterna.


     Cheguei, pois, em dia de sapateiro, como se dizia na minha aldeia.

     Cheguei gato-esfolado, contaram-me mais tarde; todavia, com muita vontade de me fazer à vida.

     Ao contrário de Daniel Abrunheiro, que daqui quero saudar fraternalmente, eu não cheguei atrasado. Cheguei a tempo, muito a tempo, para da vida ir colhendo múltiplas alegrias e tristezas, que ela é temperada com umas e outras.

     Cheguei a tempo de conhecer um país pequenino, que os próceres do regime, dirigido pelo beirão de Santa Comba, estendiam da parte mais ocidental da Europa até Timor. Era um Portugal miserável, triste e sem humor, do qual herdei esta perseverante e amarga ironia.

     Cheguei a tempo de conhecer o exílio e de saber quão amargo é viver longe da pátria, mesmo quando o afastamento resulta de uma decisão livre ou ditado pelo amor à liberdade; ou ainda, quando pela pátria nos é imposto. Oh, como eu compreende o imortal Ovídio!

     Cheguei a tempo de ajudar à festa e da festa me embriagar e da ressaca, que ainda vai teimosamente perdurando, apesar do vinho bebido não ter sido muito e nem sempre ser da melhor cepa. Se preciso fosse repetir tudo de novo, tudo de novo repetiria (Por favor, não me macem com os pleonasmos)!


     E por cá vou andando, com a pele às costas, nada reclamando do amor e dos amigos. Da pátria sim, reclamo, porque sempre a quis mais livre e mais fraterna! 

sábado, 10 de março de 2018

PROCURO-TE




Retrato breve do meu amor

Busco a palavra que diga o teu rosto marcado pelo vento
em todas as ruas da cidade procuro o teu corpo enorme
procuro-te em todas as tuas ausências, em todas as tuas_____demoras
procuro-te sabendo que virás todos os dias
Para seres a boca dissonante da minha existência

quinta-feira, 8 de março de 2018

POST SCRIPTUM



Filipa Barata

Post Scriptum

nunca esqueças as minhas mãos_______nas tuas

nunca esqueças os meus olhos _______ nos teus

17.05.08



segunda-feira, 5 de março de 2018

SONETO PORTUGUÊS




Mandantes de manhosos desconhecidos
Mandam o meu povo emigrar.
Vulgares predadores, sozinhos, querem
Tudo à pátria sofregamente sugar.
Arvoram-se, quais teólogos medievais,
Em donos de Portugal e da Verdade.
Crêem ter descoberto a pedra filosofal
E gritam como doidos: privatizar!
Estranha gente está ao leme deste navio
- Gente sem ciência e humanidade -,
Por mesquinhos interesses movida!
Tudo suga de supetão, vorazmente,
E tal é a estupidez, cegueira ou atrevimento
Que sugere ao povo a porta de saída.


domingo, 4 de março de 2018

INOLVIDÁVEL PARIS



Chamam-lhe a cidade luz,
Mas que luz tem a cidade?
Que fascínio seduz
Quase meia humanidade?

Oh, grande e bela Paris!
Oh, generosa cidade!
Não, não se engana quem diz,
Que deixas sempre saudade!

Um café no Luxembourg,
Descer o Saint Michel,
Os faquires no Baubourg,
Namorar na Torre Eiffel.

Confesso que fui feliz,
No tempo que lá vivi.
Oh, doce e gentil Paris,
Como é bom gostar de ti!

In "QUADRAS POPULARES-UMAS SIM, OUTRAS QUASE", FolioExemplar, Lx., 2012



sexta-feira, 2 de março de 2018

PROCURO





Filipa Barata

falai vós todas agora em mim – olho vosso rosto mudo
que procuro o homem dos silêncios de metal
que direis de mim neste momento
em que penso estar perto do fim
de um caminho de pedras ácidas_____  de arestas cortantes
em que venho andando nem sei já desde ____ onde

mostrai-me - se fordes capazes
onde habita o corpo dele
seu hálito de macho
entontece-me nas noites longas – onde o sono já não me afronta
e sonho com sua boca
de carne muda prestes a
estalar ao indício do meu sangue

é a ele que eu convoco – será que sabeis
para a casa do poema____ e ele quer
e eu invento-lhe um lugar onde
possa cumprir seu destino de
ser só homem

(25.05.08)