terça-feira, 7 de maio de 2013

SE EU FOSSE COMO CATULO

Se eu fosse como Catulo,
Poeta de inspiração,
Em teu corpo, amor, havia
De gravar mil versos, mil!,
De grata recordação.

Com os dedos e os lábios,
lascivos e enlouquecidos,
nele havia de escrever
a mais pura poesia.

Disse bem, amor, havia!





SE EU FOSSE COMO CAMÕES


Se eu fosse como Camões,
Havia de te fazer,
Amor, versos geniais,
Muitas trovas de encantar!

Pintar-te-ia morena
E de outras cores sadias.
Blusa vermelha decerto
E calças azuis de ganga.

Assim irias à fonte
- Discreta como se vê -,
Leda e bela ao meu encontro.

E haveria de deixar
Teu rosto ruborizado
Com mil beijos, mil ou mais.

                                       8-03-05

domingo, 5 de maio de 2013

PALAVRAS PERDIDAS

 

Há quanto tempo, mãe, não te falo de amor
Com aquelas palavras de encantar
Com que as crianças falam do amor?!


Há dias corei de vergonha,
Corei de vergonha quando li,
Num livro de cartas de Saint-Exupéry,
As palavras mágicas que ele  escreveu a sua mãe
E que eu nunca te disse a ti.


Deixei que entre nós se interpusesse
Um pudico silêncio ancestral
E disse-te apenas coisas imediatas e triviais.


Eu esqueci, mãe, aquelas palavras claras e pueris
Que tanto alegravam o teu coração.


Eu coro de vergonha, mãe!

in FRAGMENTOS COM POESIA, Ulmeiro, Lx., 2005

JUNHO
 

Para a minha mãe, com amor 

Nas manhãs de Junho,
Quando o sol tudo doirava,
A nossa casa era também
A sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

Guardo memória, mãe!,
Da nossa rua térrea
E vejo-te jovem
Algodão dobando
À sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

Nas manhãs de Junho,
Quando o trigo amadurecia
E eu brincava, brincava
À sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

Fazia-te mil perguntas
- Mil ou muitas mais –,
E tu respondias sem enfado
À sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

E eu era feliz
E tu eras feliz, mãe!
À sombra da oliveira
Do outro lado da rua.

Do outro lado da rua
À sombra da oliveira.


in FRAGMENTÁRIA MENTE, Sta. Iria, 2009

sábado, 4 de maio de 2013

DO MEU DIÁRIO


Santa Iria de Azóia, 4 de Maio de 2013 – Descobri, finalmente, que fui um gastador inveterado. Mereço, portanto, todos os castigos do mundo. Nomeadamente os que a cabeça contumaz de PC achar por bem infligir-me. Esta manhã, quando procurava uma camisa para vestir, uma camisa de linho como convém nestes dias primaveris, descobri um quarteirão de gravatas no roupeiro, lisas e às pintinhas, de seda e às riscas, de muitas e variadas cores. Algumas já com ar “démodé” e que vieram do século passado, mas não importa, foram todas compradas depois do 25 de Abril de 1974, e isso é que é verdadeiramente grave.
     Bastava-me ter duas gravatas, uma para todas as festas e a preta para aqueles dias, para aqueles dias que todos sabemos. Mas não, comprador compulsivo, andei a gastar dinheiro pedido a juros ao BPN, que nunca cheguei a pagar, com o fito perverso de ter um quarteirão de gravatas, que, por acaso deixei de usar, até nos dias de maior solenidade.
     Mereço, pois, todos os castigos do mundo e também aqueles que a cabeça obsessiva de PC achar por bem infligir-me. PC, ou aquele amigo do coxo alemão, que, dizem por aí as más-línguas, ainda que não tenha sido eleito sequer deputado, é quem manda cá no rectângulo. Mas claro, isso é o que dizem as más línguas.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

LISBOA

Lisboa gosta de farra,
Festeja todos os santos.
É como a leda cigarra,
Não vai com choros e prantos.

Com ar triste canta o fado
- Faz parte da convenção –
Bebe um tinto, passa ao lado
E lá se vai a paixão.

Velha Lisboa querida,
Sempre leal e valente,
Sempre audaz e destemida
E ilustre resistente.

Nas curvas mais apertadas,
Faz das tripas coração.
Vence! Águas passadas,
Volta à sua vocação.

Ora séria matrona,
Ora mocinha garrida,
Tratada por tu ou dona,
É alegre e divertida.
IMPARÁVEL, O TEMPO TUDO TRAZ

Imparável, o Tempo tudo traz.
E leva. No seu giro permanente,
Sem alarde, mudanças fundas faz,
Não deixando ninguém indiferente.

Encoberto ou brilhando, o sol passa;
(É do grande relógio o ponteiro)!
Tem dias em que brinca com tal graça:
Alegre, cordial e prazenteiro.

O Tempo, ora severo, ora fagueiro,
Cava marcas e deixa cicatrizes,
Por toda a parte e em minha alma também.

Passa e volta a passar, tão sorrateiro…
E tudo nos revela – até as raízes… -;
É, sem dúvida, o grande justiceiro!